Lembro de certa vez que em dezembro eu deitei em baixo da minha árvore de natal acesa e chorei, chorei. Lembro dos meus motivos pra chorar, lembro de me sentir triste, mas lembro também da paz que me dava quando eu distraía de todos os motivos e abria os olhos devagarzinho pra ver o colorido das luzes refletido e misturado nas minhas lágrimas.
Coisa boba. Pouca coisa, mas era calmante pra toda agonia tola e adolescente.
Hoje os meus choros às vezes têm motivos, às vezes não. Descobri com o passar dos anos que meus hormônios sabem ser meus inimigos quando querem. Sabem me afundar no drama de novela mexicana muito mais do que no auge da minha adolescência. Não sei se é devido a algum desequilíbrio, apesar de que desequilibrada sempre fui. Só sei que hoje meus choros são menos doces. Ainda dramáticos e tolos, mas menos doces. No entanto, mais efêmeros. Hoje eu choro debaixo do chuveiro ou encostada em qualquer parede.
Meus choros agora deixaram de ser pela falta. São choros de excesso de presença. Na verdade, excesso é o nome do meu choro. E pode ser excesso de amor, excesso de planos, excesso de vontade, excesso de sonhos. E daí que excessos também assustam. Naquela época eu achava que não, mas assustam tanto...
Não sei por qual motivo, mesmo depois de tanta vida e de tantas mudanças eu preciso chorar pra me inspirar. Talvez seja, na realidade, o reconhecimento de que a felicidade não me tira a inspiração, mas na verdade absorve ela pra si. E por conta disso a minha inspiração toma um outro rumo, se dedica à escolha do que fazer pra ser mais feliz ainda, de onde ir pra ter mais histórias pra contar. Mas no final eu sei achar as minhas lágrimas bonitas também, e a inspiração que elas trazem me recolhem pra um lugar dentro de mim que eu amo visitar.
Este ano vejo um dezembro nostálgico mas novo, e acolhedor. Nublado sim, mas aconchegante. Menos melancólico, mais otimista. Nostálgico porque algumas coisas marcam, e por algum motivo dezembro passou a ser a época do ano que mais se remete a um passado determinante pro meu futuro, pro meu presente.
Me remete à sonhos esquecidos, mas que me tornam tudo isso que eu sou. E, ao mesmo tempo, esse dezembro, particularmente, mistura tudo o que me fez ser assim com o que tem me construído atualmente. Um dezembro que me envolve na essência e no que, aos poucos, se adere a ela. E no que tem, cada vez mais, me feito ser uma nova pessoa, sem deixar de ser quem eu era.
As lágrimas mudaram, o jeito de chorá-las também. Mudaram os motivos pelos quais eu as derramo, e os dias, as responsabilidades, as pessoas. Tudo mudou. Mas ainda me reconheço. E que maravilha! Me reconheço.
Me reconheço por ver beleza ainda nas mesmas coisas, por guardar ainda as mesmas saudades, por ter ainda as mesmas referências. Me reconheço e me renovo! Com o novo, com o velho, com o passar dos anos, com a idade, com os medos, com os ataques de fúria, com as extravagâncias de carinho.
É, eu mudei. Gosto de ver quem eu sou, e queria poder me apresentar pro meu passado e, orgulhosamente, dizer: viu? Você fez isso aqui e fez muito bem feito. E agradecer, em seguida.
Sinto saudade de gente antiga, mas a alegria das novidades têm me contagiado. Das novas companhias, dos novos objetivos. E sim, chorar foi o que me provocou todas essas reflexões, porque o jeito de fazer isso mudou, os motivos e etc. Mas uma coisa fica, e é o choro propriamente dito.
Pouco importa se eu já não estou embaixo das árvores de natal, ou na janela lamentando um amor distante, pouco importa se agora eu só choro na carência que uma TPM me causa. O fato é que eu choro!
E me permito chorar, e me maldizer, e me odiar, e me livrar do peso dos dias, do peso de uma vida de gente grande que é até fácil demais e confortável demais e protegida demais. Mesmo assim eu choro! De dezembro à dezembro, eu choro. E amo. E que nunca me peçam pra mudar. Meus dramas mexicanos são lindos, e românticos, e com todo o "cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama".
E mais um ano amando, e chorando, e sorrindo, e caindo, e nostalgiando, e brincando, e sendo feliz. Ponto.
E é só isso que eu quero: ser feliz. Dramaticamente feliz, inseguramente feliz, saudosamente feliz, escandalosamente feliz. Às vezes insatisfeita, dura, rabugenta, grosseira, ogra, monstra, bruxa. Porém feliz.
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