... Subentenda-me: Sobre gente e satisfação

domingo, 10 de janeiro de 2016

Sobre gente e satisfação

Mais uma madrugada. Antes fosse só a insônia. Antes fosse só o meu medo noturno. Mas são dores. Dores de quem se perde na vastidão de significados embutidos no simples fato de ser gente.
Gente.
Gente que nasce, cresce e morre. Gente que às vezes morre de fome. Gente que às vezes morre de tristeza. Gente que raramente sabe o que é ser plenamente feliz.
Gente que acorda cedo e faz café. Ou gente que dorme até mais tarde e fica de bobeira.
Mas no fundo, no fundo mesmo, tem gente que sabe o que fazer? Eu quero saber!
Saber ser gente de verdade. Não que quem não saiba não seja gente. Porque, apesar dos pesares, a gente sempre tenta.
A gente tenta saber o que faz, ou, pelo menos, seguir os padrões. Na maioria das vezes é só esse o objetivo, não é? Estar inserido em algum contexto que seja.
"Bom dia, seu Zé. Já chegaram as correspondências?"
"Ah, claro, mais conta pra pagar."
"E o preço da gasolina subiu, né?"
"Pois é."
E não é quase sempre assim? Isso sem falar de gente que nem esse luxo pode se dar. Isso sem falar das pobres almas que voltaram pra alguma dívida de outras épocas quitar.
E não, não é pra rimar!
Porque a gente não rima. A gente é fora do tom. A gente é daquele tipo que tem surpresa atrás de surpresa. Decepção atrás de decepção.
Que sorte de quem consegue ser num mundo em que só existir já é tão difícil.
Que sorte de quem consegue amar, num mundo em que a tela do celular quando quebra dói mais do que um coração quando parte.
Ah, eu queria muito poder ser. Queria poder saber o que eu vim fazer. Queria encontrar alguém, sentar frente a frente e dizer: pronto, me tira todas as dúvidas do mundo.
Por que pra uns é tão fácil, enquanto que pra outros tudo gira feito um carrossel?
Por que a gente vive? Por que a gente come? Por que a gente dorme? Ah, e tenta me explicar sem falar de biologia.
Tenta me explicar a nossa essência, a nossa aura, os nossos chakras.
Tenta me falar do oculto, do místico, do invisível aos olhos.
Eu gosto é disso.
Em que parte do mundo vive a pessoa que tem todas as respostas pras minhas dúvidas que se perdem nas paredes do meu quarto em mais uma noite de sono perdida?
Sou eu? Essa pessoa sou eu? Não quero que seja. Porque se não sei hoje, e se me perco hoje, pra descobrir essas respostas terei que correr muito pelo desconhecido. E isso assusta.
Tá vendo? Assusta ser gente.
Assusta não saber direito o que a gente tem que fazer.
Dá aflição, nervoso, taquicardia.
A gente arruma dores que saem da nossa cabeça por conta do medo absurdo de ter que ser de carne e osso.
Dói a cutícula. Dói o fio de cabelo.
E o tempo passa, os dias correm. Resta saber se me contento com a ignorância ou vivo contemplando a falsa ilusão de ser sábia apenas por conta do que li no meu feed de notícias.
Resta saber o que eu escolho.
Em busca do quê mesmo? De quem? De quando? De onde?
Amor?
Não. O amor eu sei que existe, esse eu quase posso ver.
Procuro aquela que se esconde em meio a tantos enganos. Aquela que todo mundo quer mas não sabe definir quem é. Acho que a tal da satisfação.
Não é alegria. Não é felicidade. Não é entusiasmo.
Satisfação. O meu sinônimo pra completude dessa falta insistente. Ou, em outras palavras, a palavra que daria o sentido que eu quero nos meus dias, na minha vida inteira. E na vida de muita gente. 
Onde vende? Quanto é? Declara no imposto de renda?
Ah...
Ser gente.
Gente que lida com gente, que estuda gente, que dorme do lado de gente, que trabalha com gente. Compartilha, confraterniza, abraça e beija. Mas que de gente não sabe nada.
E qual é o problema dessa gente?
Na minha opinião, o nosso grande mal é que o que move a gente até pra fazer bem pra mais gente é... Tam tam tam... A gente. Não gente, a gente
Me incluo, até. Apesar disso, penso: o que falta mesmo é cada gente se olhar por dentro, se ver, se notar, se reparar, se ligar, se localizar, se conformar. Pra depois abrir os olhos e ver que quem está na frente também tem por dentro o mundo que a gente viu enquanto estava de olhos fechados. 
E será que a gente consegue isso ou só sabe ver espelhos?
Complexos, defeituosos, únicos e faltantes.
Quem sabe assim seria mais fácil reconhecer que a gente não é o que parece ser (mais do que fotos nossas fotos bonitas no instagram).
Porque se olhar por dentro é uma grande contribuição, mas haja desconforto. 
Quero acreditar que quem se repara e vive melhor. Mas ela, a satisfação, tenho minhas dúvidas se chega até pra aquele que mais se tem. 
Alcançar a satisfação seria a solução pra todos os nossos problemas.
Tem quem não tenha? Eu duvido! 
Ela não existe. Existe só o desejo de tê-la. 
Acho que às vezes, se dermos sorte, encontramos alguma alegria pelo meio do caminho. 
No entanto, não sei. 
Satisfeitos? Completamente satisfeitos sempre? Acho que não, hein?
Algo me diz que essa versão da gente não tem esse software instalado. Se tivesse, isso tudo aqui seria outra coisa. 

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