Mais um dia aqui e eu sentindo uma coisa como se fosse ele. Como se o universo já tivesse definido muito antes de se cogitar que ele fosse quem cruzaria meu caminho e tomaria de mim um fôlego diferente de tudo.
Foi como se no dia daquela ligação eu já o conhecesse. E de lá pra cá só tenho acumulado a certeza de que nele repousa a tranquilidade que tanto me faltou desde que me conscientizei de mim mesma.
Disfarço a platonicidade com o fone, e nele Caetano confirma: talvez haja entre nós o mais total interdito, pois você é bonito o bastante, complexo o bastante...
Me retraio na minha discrição. Mas por dentro só consigo pensar e pensar...
Que ele me faz respirar fundo todos os dias pela manhã. Que meu dia só começa quando ouço os passos dele, e quando identifico que é ele pelo jeito de abrir a porta, já que, a essa altura, é fácil diferenciar da entrada de qualquer outra pessoa.
Penso que quando eu vejo ele passar meus pulmões enchem de ar mas meu cérebro fica sem nenhum oxigênio pra raciocinar sobre o que ele representa.
Entre meus afazeres e obrigações, quando ele está perto só consigo olhar estagnada e admirar as coisas inteligentes que saem da boca dele, sem que ele perceba. E então eu me derreto, quieta no meu canto, suspirante.
Até que, de repente, ele interrompe a minha divagação e me chama. Vou até ele, mas enquanto ele termina de conversar com alguém eu espero ao lado, e esse intervalo até ele lembrar de ter me chamado vira outro delírio em plena luz do dia.
Fico parada pensando, pretensiosamente, que vai ser ele a me acompanhar numa caminhada regada por um sereno gostoso de sentir.
Imagino embasbacada, enquanto aguardo o próximo comando, que será ele a me olhar nos olhos e entender meus anseios, minhas fugas de mim mesma.
Devaneio dentro de instantes que coincidências não existem. Penso que há muito o que ser e ainda não sabemos. Indiscutivelmente é um encontro. Ainda que efêmero, ainda que futuramente perdido ou abarrotado por acontecimentos imprevisíveis de nossas vidas que nada se sabem. Algo está sendo tatuado no meu coração diariamente. Eu ainda não sei o que é, mas é arte, é música, são livros, tardes bonitas, cheiros bons de sentir, uma roda de amigos fiéis, um cafuné na cabeça, um passeio regado por risadas e vontade de não ir embora.
Até que concluo, enquanto ele me olha já desocupado e curioso com a minha inexpressão e paralisia, que não pode ser engano, talvez seja amor antes de ser. Amor pela delicadeza da troca de olhares e do tom de voz. Amor pelo jeito de usar as mãos, pelo modo como mastiga e pelo sorriso que deixa o canto dos olhos delicadamente engelhados. Amor pelo sonho bom de acordar na mesma cama e sentir a veracidade no olhar de quem te enxerga a alma despida, nua. Sou eu. Sou eu quem vai dizer "tu és tudo que eu sempre sonhei" sem que ele saia correndo, com medo. Sou eu quem vai achar linda alguma parte do corpo dele que até então ninguém havia reparado, e ele vai rir porque vai ser um lugar muito improvável pra se ver beleza. Até que...
Eu volto pra realidade com o estalar dos dedos dele e em seguida ouço ele, enfim, dizer o que queria quando me chamou: "Carol, podes guardar esses documentos pra mim?"
E eu, depois de voltar pro planeta Terra, sorrio desajeitadamente, e busco na mesa dele a minha tarefa. Desconcertada, tímida, boba.
Viro de costas e dentro da minha própria cabeça só consigo pensar: é, talvez não seja tão discreto assim, Caetano.
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