Recentemente, em virtude do agradável gosto musical da minha vizinhança, lembrei de uma música da qual há muito tempo havia apagado completamente das minhas recordações. É uma música do Jorge Aragão, se chama Loucuras de uma paixão. Distraidamente ouvi e automaticamente comecei a cantar. Foi instantânea a lembrança da letra e da sensação que a música transmitia pra mim.
Durante muito tempo esqueci, mas lembrei que era uma das músicas preferidas da minha infância. Me transportei. Baixei a música no meu celular e desde então tenho ouvido pelo menos uma vez por dia. Gosto do conforto que me dá sempre que eu ouço.
E quero escrever sobre essa e as outras músicas que marcaram a minha primeira idade. Primeiro pelo sentimento bom de nostalgia e segundo por admirar a minha interpretação das letras na época, que, mesmo com minha imaturidade, já era coerente com o que escolhi acreditar por uma vida inteira. Inclusive, talvez essas músicas tenham sido responsáveis pra formação de uma série de sentimentos bons que guardo comigo até hoje. Talvez tenham contribuído, inconscientemente, pra me fazer sem quem sou.
Sobre essa musica do Jorge Aragão, especificamente (sem deixar de considerar a importância, ainda que menor, de sentir profundamente aquela do "aí foi que o barraco desabou, nessa que meu barco se perdeu"), eu só posso dizer que pode ter sido também por causa dela a minha precoce valorização do amor e quem sabe até da ilusão de que ele nasce, simplesmente, assim do nada. Com toda a doçura e delicadeza do mundo.
"Sem lhe conhecer
Senti uma vontade louca de querer você
Nem sempre se entende as loucuras de uma paixão
Tem jeito não
Olha pra mim Faz tempo que meu coração não bate assim
Não faz assim, me diz seu nome
Não me negue a vontade de sonhar De sonhar os meus sonhos com você
Despertando pro seu adormecer
Seria bom demais
Que bem me faz, você"
Despertando pro seu adormecer
Seria bom demais
Que bem me faz, você"
E que lindo eu achava (e continuo achando) essa parte de "sonhar os meus sonhos com você". O coração batendo, aquele amor. Não consigo deixar de acreditar e de achar lindo esse encantamento. Puro, sincero, e aparentemente não efêmero. Contos de fada, amor à primeira vista, coisas que hoje, apesar de pra mim representarem certa improbabilidade, continuam sendo doces e significantes. Mesmo tendo perdido em parte aquela ingenuidade infantil, a crença no amor e no bem que alguém pode fazer persiste.
Depois dessa, outras três músicas me lembram e me fazem sentir o gosto bom daquela vida sem grandes problemas. Saudosa maloca, Trem das onze e Qualquer coisa. As quatro músicas estavam presentes em um CD da minha minha mãe que reunia os "sons do barzinho". Até hoje me lembro da capa do CD, que eu também amava ficar admirando.
Acho que Saudosa maloca foi a música responsável por me fazer entender que Deus não nos dá um problema maior do que podemos suportar. Claro que quando criança o meu entendimento era mais restrito, porém nunca esqueci da frase "Deus dá o frio conforme o cobertor". E hoje, sempre quando algo está ruim, lembro dessa frase e entendo o significado, com a clareza e lucidez que só a vida adulta permite, mas sem desacreditar, nem por um segundo, na veracidade dela.
Além disso, remetendo àquela época, eu gostava de imaginar a história e muito me sensibilizava. Sabe quando a gente assiste um filme várias vezes e mesmo sabendo dos acontecimentos sempre fica torcendo pra ser diferente e dar certo? Saudosa maloca era assim pra mim. Eu lamentava a demolição, torcia pra não acontecer ou simplesmente só ficava imaginando caso não tivesse acontecido. Até hoje tenho formado na minha cabeça os rostos dos personagens: "eu", Mato Grosso e Joca.
Além disso, remetendo àquela época, eu gostava de imaginar a história e muito me sensibilizava. Sabe quando a gente assiste um filme várias vezes e mesmo sabendo dos acontecimentos sempre fica torcendo pra ser diferente e dar certo? Saudosa maloca era assim pra mim. Eu lamentava a demolição, torcia pra não acontecer ou simplesmente só ficava imaginando caso não tivesse acontecido. Até hoje tenho formado na minha cabeça os rostos dos personagens: "eu", Mato Grosso e Joca.
Já Trem das onze, sempre teve o posto indelegável de "minha música". Mamãe sempre diz isso, e é. Ela não dorme enquanto eu não chego, e eu não perderia esse trem porque também tenho minha casa (e minha mãe) pra olhar.
Qualquer coisa representa pra mim a música mais querida e gostosa de ouvir. Eu amava o jogo com as palavras e a sonoridade delas. Costumava pensar que, em mim, qualquer coisa doida, dentro, mexia. E isso, até hoje. Eu cantava e ainda canto alto: "SOU O SEU BEZERRO GRITANDO MAMÃE". Amor define. Mesmo já tendo lido algo sobre a real interpretação da letra, ainda mantenho em mim o sentimento infantil por ela.
Se eu tivesse que dizer o que entendo da música hoje, eu diria que pra mim se trata de alguém que está sentindo algo e não sabe definir, e aquilo mexe porque não encontra aval ou reciprocidade. E tudo bem, a gente berra pelo erro do outro, mas ainda assim, por causa da "qualquer coisa" que a gente sente, sabe lá o motivo, ainda queremos que ele nos apanhe e torcemos para que ele ganhe. O amor tem dessas coisas, né? Gosto de imaginar nesse sentido. E é muito aconchegante.
Se eu tivesse que dizer o que entendo da música hoje, eu diria que pra mim se trata de alguém que está sentindo algo e não sabe definir, e aquilo mexe porque não encontra aval ou reciprocidade. E tudo bem, a gente berra pelo erro do outro, mas ainda assim, por causa da "qualquer coisa" que a gente sente, sabe lá o motivo, ainda queremos que ele nos apanhe e torcemos para que ele ganhe. O amor tem dessas coisas, né? Gosto de imaginar nesse sentido. E é muito aconchegante.
Essas quatro músicas me fazem, agora, pensar no quanto amo esses fatos da minha vida e no quanto gosto de valorizá-los. Uma paixão louca pode ser qualquer coisa que mexe doida dentro da gente. Não aceitamos perder o trem por amor a quem nos espera. E Deus não nos permitiria sentir nenhuma dor senão fosse pela razão de nos tornar mais fortes. Sem contar que a gente sempre pode reconstruir nossa maloca. E no final tudo faz sentido, uma coisa puxa a outra. É muito bom perceber a boniteza dos pedacinhos que nos compõem. Nada é tão pequeno, tudo junto faz a gente ser quem a gente é.
Obrigada, mamãe, pelos "sons do barzinho".
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