Eu tenho apreciado minha dedicação em me fazer presente no presente de todos frames que compõem essa minha realidade.
Tenho me achado mais bonita e confiante. E isso se confirma quando sou surpreendida pelo meu antigo chefe que para, abaixa o vidro do carro, me cumprimenta e me elogia de uma maneira muito respeitosa, enquanto eu retorno pra porta do meu trabalho depois do cancelamento inesperado do Uber que eu estava esperando.
Fico contente com a abordagem do meu antigo chefe e percebo que é porque concordo com o elogio. Diante disso, relaciono imediatamente que concordar com o elogio e me achar mais bonita e confiante está acontecendo exatamente por conta dessa minha recente intenção de estar atenta ao agora, ao invés de conjecturar inconscientemente sobre como eu gostaria de ser, sobre o que falta pra eu ser quem eu gostaria de ser.
Nesse momento eu sei que essas fantasias me ocorriam de forma imperceptível, mas me impactavam o suficiente pra uma constante sensação de não me saber de fato, pra eu me sentir continuamente descontente comigo mesma.
Abandonei essa mania nos últimos tempos, quando me conscientizei de que não existe o que eu gostaria de ser, e que a atenção dada a esse desejo é o que propriamente me afasta da identidade que quero incorporar.
Eu sou o que eu sou agora, nada mais. O depois não existe. Eu só tenho o agora pra ser quem eu quero ser.
De posse dessa nova perspectiva, me percebo mais interessada e focada em não permitir qualquer devaneio que me distancie da imagem presente de mim mesma. Da imagem de quem eu JÁ sou.
Evito que meu subconsciente vague por qualquer lugar que não seja exatamente o lugar físico e mental em que eu me encontro. Direciono meus pensamentos de forma consciente pra aceitar que eu estou onde eu deveria estar, que eu sou quem eu deveria ser, e a minha versão mais aprimorada está exatamente nesse frame, nesse agora.
Meus pensamentos então passam a ser menos idealistas e mais apreciadores das coisas reais que me envolvo a cada instante. Tudo está vinculado com o que de imediato se apresenta na minha vida.
Eis então que sentada na sala de espera de uma clínica, em vez oscilar nas projeções sobre onde eu gostaria de estar futuramente, sobre minha aparência, sobre o corpo ideal, sobre tudo o que eu consideraria longe do meu instante atual, me observo justamente dispensando todas essas construções.
Essa dispensa sou eu estando presente.
Me volto pra mim, gosto do que vejo e do que sou, sinto meus pensamentos transacionando tranquilos pra que eu consiga continuar a ler um livro. E leio, acessando integralmente os cenários da história, inteiramente concentrada como há pouco tempo eu jamais conseguiria, ainda mais em público, ainda mais esperando um atendimento.
Estou lendo “Belo mundo, onde você está”, da Sally Rooney. Releio algumas vezes o e-mail que uma das personagens escreve pra sua melhor amiga descrevendo suas impressões a respeito de Jesus.
Ela diz que se comove e contempla sua vida e morte, nutrindo carinho e apreço por sua figura, mas que, ao invés de se encher de paz espiritual, se sente banal e rasa comparada à existência dele porque, mesmo falando sempre sobre a ética do cuidado e do valor da comunidade humana, em sua vida real sente que não assume o trabalho de cuidar de ninguém além de si mesma.
A personagem, Alice, observa que ninguém depende dela pra qualquer coisa, e, apesar de se culpar por isso, ela entende que é um fracasso generalizado porque, de toda maneira, as pessoas de trinta e poucos anos abandonaram o modelo antigo de união, e, ainda que o afastamento da ideia de casamento tradicional evite alguns tipos de fracasso, pelo menos esse modelo representava um esforço em prol de alguma coisa.
O questionamento seguinte me pareceu muito válido porque a personagem encara que, apesar de não querer repetir velhos erros pra sustentar um estilo antigo de união, ninguém pensou no que colocar no lugar e, da sua perspectiva, nada ficou no lugar. As pessoas passaram a detestar muito mais quem comete erros do que amar quem faz o bem. Sendo assim, qual seria o certo, afinal? Não amar ninguém? Não fazer nada?
Antes que esse diálogo interno da personagem chegasse ao fim, viajo na minha própria análise sobre o assunto. E muito mais aberta pra uma reflexão livre de julgamentos, justamente pela minha dedicação em me abster de algumas idealizações, pensei que, mesmo acreditando que o propósito de viver por alguém ou algo não leva em consideração as eventuais frustrações e os eventuais fracassos dessa vivência, mas sim a justa, desinteressada e generosa entrega de si para esse alguém ou algo, também encontrei sentido em não cuidar de ninguém além de mim mesma.
Enquanto a personagem discorria numa espécie de lamento, eu fui para o lado oposto pensar que cuidar de mim é muita coisa, e, dentro de uma crença particular, me remete a aceitar que é uma excelente maneira de cuidar do resto do mundo, ou da mencionada comunidade humana.
Gosto de pensar assim, sinto uma expansão no peito, um foguinho no coração. Sei que é porque está ressoando com meu momento de vida. Não é um pensamento vão, infrutífero. Representa exatamente o que internalizei. E, mesmo que eu esteja consciente do meu lugar de privilégio por ter por quem viver além de mim, de todo modo eu me recuso a pensar que viver por mim é pouca coisa. É tanto quanto. É o meio pra viver saudavelmente por alguém ou por algo.
Pensar assim me entusiasma.
Ao chamarem meu nome pra fazer o exame, volto dessa viagem e fico feliz em perceber que fui pra outro lugar e esse lugar não me afastou de mim, só comprovou que me pertence agora o domínio sobre estar onde quero estar e isso pode ser considerado a mais nova habilidade que me orgulho de ter conquistado.
Sinto, então, aquele tal acréscimo de estima por mim mesma porque realmente pareço estar entrando numa existência superiormente interessante.
Levanto pro exame de audiometria feliz e com o coração estranhamente aquecido e emocionado.
Me vejo sensível a todos os estímulos desse momento, e sinto uma ternura inexplicável pelo médico que me atende com gentileza. Um senhor idoso, com as mãos trêmulas, que delicadamente coloca um aparelho em meus ouvidos.
Estou atenta, curiosamente grata e feliz. Me distraio por um momento e penso no que o médico poderia ter que lhe fazia tremer. "Parkinson, talvez? Ah, não importa." Solto o pensamento e volto pro agora e pra sensação de felicidade que estava sentindo desde a hora em que me deparei com a minha capacidade de me auto apreciar sem viajar pra outra realidade distante do meu momento presente.
Logo o médico me convida pra entrar na cabine de audiometria. Ouço apitos e sinalizo com atenção até onde consigo ouvir cada som. Sigo feliz. Concluo o exame e tenho como resultado que a infecção forte de meses atrás não me causou danos auditivos.
Retorno pra sala de espera e me encontro ainda voltada pra percepção de me saber.
Decido escrever esse texto. Me proponho a lembrar sempre dessa manhã comum, de um dia comum, com obrigações e responsabilidades de autocuidado comuns, que me fazem apreciar com graça a vida que poderia até ser considerada banal, mas que pra mim se apresenta em outra etapa de um processo de cura e de pertencimento próprio.
Escrevo pra que eu não esqueça de notar que os dias bons não precisam ser extraordinários, e que a evolução pessoal não se mostra apenas quando algo notoriamente bom acontece. Tudo já está acontecendo e a poesia de tudo mora, justamente, na beleza do agora de um dia normal, enquanto espero meu Uber pra voltar pro trabalho.
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