... Subentenda-me: Abram alas

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Abram alas

No primeiro dia eu senti a dor de te ver morrer pra mim. Chorei num luto intenso. Solucei de dar dó. 

Me tranquei no banheiro, coloquei as mãos no peito e me encolhi um pouquinho. 

Meu coração partiu em pedaços porque nunca me ocorreu de ter que lidar com a tua morte. Não foi fácil. 

No segundo dia acordei ainda com a sensação de incredulidade de quando alguém próximo morre, mas depois reagi. 

Senti que já tinha te velado o suficiente, e então te enterrei. 

Foi quando segui, enfim, pra minha morte. 

A minha morte pra ti. 

Não foi uma morte tranquila, do tipo quando se morre dormindo. Eu sei. Foi uma tragédia!

Doeu muito ter que morrer, mas, ainda assim, contraditoriamente impassível, morri. 

E sinto que morri com maestria, com classe. Morri pelo o que mais amo: eu mesma. 

Morri com dignidade. 

Eis que no terceiro dia ressuscitei, pra mim. Ou só mesmo reacendi minha chama, já que morrer eu só morri pra ti. 

Segui a todo momento viva, aqui, por mim, mas apagada, confesso. 

Não demorou nada - até porque eu não permitiria que demorasse - e senti de novo vibrar o calor da vida que eu gosto de viver. Muito mais forte do que antes. 

Olhei pra mim e pro mundo com uma ternura indescritível, com um amor inabalável. 

Senti uma vontade absurda de viver com muito mais intensidade a felicidade que sempre me pertenceu. 

Tudo ao meu redor pareceu mais colorido. Eu não sabia o quanto me adoecias. 

Me vi impactada por uma urgência em viver tudo o que é meu de um jeito totalmente presente. 

Foi como ver dois enormes portões coloniais se abrindo iluminados por uma luz muito forte. 

Me senti esplendorosamente livre e receptiva pra deixar entrar mais felicidade por tudo que é meu e por tudo que já era mas ainda não tinha me alcançado justamente porque esses portões estavam fechados. 

E foi nesse dia que eu tive a certeza: nossas mortes - você pra mim e eu pra você - me libertaram. 

Essa corrente precisava se quebrar, esse ciclo precisava findar. 

Durou demais. 

Agora me sinto efervescente. 

Me sinto, finalmente, pronta pra viver a plenitude de tudo o que já me preenchia, mas não me transbordava.

Transbordou. 

Transbordei de mim e do que é meu por direito e merecimento. 

É maravilhosa a sensação. 

Eu sinto com clareza que há um milagre acontecendo. 

Uma cura. Forte, arrebatadora! 

Nesse terceiro dia eu me preparei pra, enfim, viver todos os próximos dias. 

Isso sim vai ser incrível

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