... Subentenda-me: Deixa eu descansar

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Deixa eu descansar

Então eu paro, no meio do dia, do trabalho, em frente ao computador da firma e a uma pilha de processos verdes cheios de post-its e ligas que eu improvisei com grampeador pra envolvê-los. Paro, nesse exato, específico e desnecessariamente detalhado cenário com o coração apertado porque eu li um texto de quando nem vinte eu tinha e me veio a conclusão insuportável de que eu nunca me libertei de um certo não sei o quê. 

Quanta vida desde então, quantos sonhos realizados, quanta satisfação, quanta consciência eu conquistei. Mas sigo aqui vez ou outra encarando um aperto de adolescente, um sufoco que não combina com a minha vida adulta, responsável, materna, independente e satisfeita. Eu cresci tanto e tanto e tanto mas ainda, vez ou outra, fecho os olhos e sinto.

E não se trata simplesmente de lamentar ou perceber a falta desconhecida de uma experiência nunca vivida. Não. É sobre a minha identidade, é sobre o que reprimi em mim por receio de uma avaliação negativa imaginária de um inanimado real e tão referenciado que revira os olhos enquanto eu, entusiasmada, falo sobre o que me faz vibrar e me alinha com toda a minha crença sobre os mistérios que me dedico a desvendar, ou, pelo menos, tentar entender. 

Me inibi todos esses anos porque, na minha cabeça, é como se essa coisa fosse uma extensão de uma consciência que, mesmo que não minha, vive acoplada, ainda que eu saiba que é fruto de um delírio, uma idealização perdida no tempo.

É uma consciência alheia a minha, que me faz imaginar compulsoriamente o que diria, ou o que pensaria sobre as minhas ideias, minhas inspirações e minha forma de ver a vida. E ainda que uma parte de mim ache e sinta que até causo impactos emocionais significativos nessa consciência não minha, isso não supre em nada a parte que me faz sentir feia, menina, meio boba, sem bibliografia. 

E eu sou tão mais, sempre fui. Eu sou tão mais, cheguei tão longe. Por que - infernos - permito que esse grande vazio continue me limitando, me proibindo de me expressar, de me dizer pro mundo?

Não quero mais essa parte dessa identidade que, ao mesmo tempo que me faz sentir próxima de alguma poesia e inspiração, me afasta da liberdade da minha expressão, dos meus gostos, da poesia e inspiração que vem só de mim, das minhas próprias frases rebuscadas incompreensíveis, que eu, imersa nesse devaneio, julgo como tolas porque insisto em medir pela régua tal que está acostumada a ser academicamente perfeita, esteticamente bonita, musicalmente refinada, entre as tantas qualidades que eu mesma criei sem considerar que, ah, o desodorante pode ser que precise ser especial pra se manter olfativalmente harmonioso. 

E não que eu queira diminuir essa coisa inexistente pra me elevar, mas é que, meu Deus, como estou cansada! 

Trinta anos na porta e há quase quinze me vejo assim, aprisionada, e ora vai, ora volta, e mesmo quando não está, eu padeço, penso, me regulo e calo o que em mim é latente de começar, de dizer, escrever, criar. E não faço, eu nunca faço e sei o porquê. Só sei que quero findar com esse ciclo, essa persona que me segue por todos os cantos, todos os anos, todos os cômodos. 

Quero dispersar dessa companhia, quero desabilitar essa função do meu sistema operacional, quero eliminar esse personagem do roteiro do meu filme, porque eu, em essência, voo sozinha, e foi voando sozinha que cheguei até aqui. 

E nessa súplica autoimposta eu descanso na esperança de ser liberta pro que me espera, pro que me acende e é meu. 

Esse é o momento e o tal descanso é um adeus pra isso que precisa se desconectar pra sempre de mim. 

Essa sou eu querendo olhar pela janela e ver essa coisa seguir o próprio rumo, enquanto eu, aqui do alto, danço September livre, grata e totalmente entregue ao que é meu. Me pertencendo, finalmente, pra me permitir ser e manifestar toda a poesia e inspiração que vem de mim. Só de mim.


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