... Subentenda-me: Protagonista

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Protagonista

Potência. Força. Loucura sã de quem tem feito um bom trabalho com o que me fizeram. 

E ninguém me fez nada a não ser me dar de presente pra mim. Eu não estaria aqui no meu trabalho confortável, no meu casamento confortável, na minha vida confortável se não fosse o desconforto de toda uma realidade pela qual eu nunca passei de olhos fechados. Não. Nada me passou em desatenção. Sempre estive atenta a cada poeirinha que me tocava. 

Nunca me senti tão vitoriosa, tão poderosa e tão FODA! E tenho reorganizado esse espaço aqui pra continuar voltando pra minha casa. Esse lugar o qual cheguei a cogitar ocultar dos registros da minha vida sendo que é exatamente meu dossiê, minha prova escrita e incontestável de tudo que sempre me provocou e me empurrou pra dentro de mim. 

Do devaneio mais bobo e adolescente até as reflexões mais profundas que uma garota poderia fazer. Que loucura, eu sempre fui um acontecimento. 

Me reler em todas as fases e pensar: QUE LINDO O QUE FIZ COMIGO MESMA.

Eu deixei migalhas pelo caminho e sempre quando me perdia, quando ainda me perco, eu me acho no que escrevi. No que detalhei da minha história, dos meus sentimentos. Eu sou psicanálise pura, eu sou um evento. 

Me apropriar disso é milagroso, é erupção vulcânica! Eu, com 30 anos, uma filha, um casamento e uma vida que é confortável sem jamais ser confundida com uma zona de conforto, tudo isso é, no mínimo, tudo o que sempre quis e lutei pra viver. E eu vivo essa vida confortável porque eu MEREÇO. E não estou na zona de conforto porque eu QUERO seguir sentindo desconfortos pra conquistar novos confortos que eu sempre vou merecer. Eu quero sempre mais do que já tenho! 

Cheguei num ponto tão fantástico aqui que tudo o que eu tenho agora, o antes, o durante, TUDO, é de um valor tão inestimável que só consigo festejar e rir e vibrar na certeza de que meu futuro me leva pra inadiável multiplicação disso tudo. 

Eu sinto um verdadeiro êxtase em estar viva. Eu reorganizo essa minha casa interna sem jogar ABSOLUTAMENTE NADA fora, porque eu tenho um espaço imenso. E cabe! Aqui dentro cabe o mundo! 

Esse ano tenho movimentado todas as minhas caixas, as minhas tralhas. Está tudo aqui, tudo catalogado, do maior pro menor. É tudo meu. Amo tudo, sigo amando. O meu amor me trouxe até aqui. Mas também meu ódio, minha vontade inexplicável de ocupar o lugar de ser minha propriedade. Esse bendito lugar que ocupo hoje, reconhecidamente.

Eu olho em volta e vejo um mundo inteiro confuso e perdido e vivendo nessa loucura que é a vida, que é a sociedade, que são as relações, as pessoas, e só consigo amar a realidade de morar dentro da minha própria cabeça. Eu sou fantástica. 

Eu, com 15 anos, estava divagando sobre amor, sobre o meu lugar no mundo! Que doideira, eu sempre fui boa. Não é à toa que sempre atraí gente profundíssima, gente que é e faz esse movimento todo, independente de se achar ou não. O tédio passou longe das minhas relações. Sempre atraí situações trampolim. Ou sempre fiz com que elas fossem isso pra mim. Meu Deus, eu sou o mago! É incrível como eu sempre soube utilizar as minhas ferramentas pra fazer o que tinha que ser feito comigo sem me colocar num lugar de fragilidade, de vítima. Eu sou um monstro! 

Me olho agora, depois de ter feito uma faxina imensa, exaustiva, aterrorizante, desde o fim do ano passado, e vejo uma mulher engrandecida, uma mulher sem precedentes. Uma mulher suada, descabelada, mas realizada com o resultado dessa limpeza toda. Está tudo um brinco, um sonho. 

Sim, eu estou vivendo o sonho de olhar em volta e dizer: UAU que trabalho bem feito, Carolina. 

Esses cômodos todos arrumados depois de toda a bagunça, toda a tristeza, depois de revirar tantos papeis e memórias. Tudo que é meu e eu cuidadosamente coloquei no lugar certo, enrolei em plástico bolha e posicionei no lugar mais inacessível das minhas prateleiras porque eu PRECISAVA do espaço que toda aquelas bugigangas e estavam ocupando. Minhas bugigangas, meus trecos. Amados, sim, mas espaçosos demais. Estava deixando tudo atravancado. 

E, ainda que toda essa arrumação tenha demorado, que orgulho sinto por ter conseguido fazer outras coisas enquanto eu arrumava. Porque só mesmo uma mulher da minha magnitude consegue fazer tão bem e simultaneamente tudo o que se propõe a fazer. 

A cada nova caixinha revisitada e realocada pra outro lugar mais apropriado, consegui logo preencher aquele vazio com o conteúdo que me faltava, com o projeto que me faltava, com o sonho que estava na lista pra ser realizado há tempos. Não adiei a realização de nenhum sonho porque estava nessa lida de arrumar a minha casa. 

Não sou pessoa que adia sonho nenhum pra nada. E realizei, e estou aqui, cheia de coisas adultas, cheia de rotina, de filha, de educação positiva, de maquetes escolares, de consultas, de imposto de renda, de tarefas domésticas e de novos sonhos e novos impulsos. Ainda totalmente intencional e atenta pra absolutamente todas as nuances que me atingem, aproveitando tudo pra continuar executando essa obra interminável e linda que é a minha vida. 

Estou aqui livre, num casamento que consegue ser tudo o que eu preciso pra me contribuir nessa jornada de continuar sendo minha. De papai e mamãe até a selvageria toda que eu tenho comigo. E sigo me satisfazendo sozinha quando a vida corre e não dá pra parar 5 minutos, mas eu paro e me amo porque eu me conheço! Ah, e como é bom me conhecer nos detalhes de mim, nos lugares de mim. 

E conhecer alguém, e viver com alguém, e não ser ingênua pra saber que o amor romântico é uma grande ilusão e tudo pode sempre acabar. Mas acordada pra dizer: que se dane, eu banco é tudo. Eu me entrego, eu sei onde estou, e eu estou lúcida, como sempre fui. Manifestamente desperta e esperta. 

Não dava pra viver a vida que eu quero e mereço viver sem reposicionar prioridades, sem reformar meus cômodos, trocar móveis do lugar. E eu não joguei minhas coisinhas fora não por apego, mas porque eu sou tão incrivelmente consciente que não tem nada aqui que não tenha uma qualidade altíssima e indiscutível. 

Aqui é tudo assinado, com design exclusivo, e tudo meu. Eu quero comigo porque me decora. Me preenche de personalidade, e me faz sentir totalmente dominante e proprietária. Como eu disse, a casa é grande. Onde já se viu? Eu não sou clean, minha casa não é clean, não é bege. Minhas paredes são coloridas e tem quadros e mais quadros, estantes cheias de peças de colecionador. Vou jogar fora pra quê? Eu preciso disso pra minha casa grande ter a minha cara, o meu borogodó. 

Estava um caos? Sim. Agora não mais. Eu redecorei com o que já tinha, e guardei o que por hora não vibra com a minha energia. E esse espaço maior e livre tem acumulado tantos e tantos e tantos novos itens. 

E são histórias, eventos, reuniões, comemorações, encontros felizes. Tudo sendo vivido aqui nessa minha casa linda e organizada. Onde agora eu vivo melhor minhas coisas adultas.

Foi me desorganizando que me organizei, bem no estilo de Clarice. E veja só onde eu cheguei: leio Clarice! Em profundidade. Mais do que isso: ENTENDO CLARICE. Eu sou hoje o que por vezes pensei que jamais poderia ser. Na verdade, francamente, eu sou é o que sempre fui. 

E meu caos deu lugar a uma dinâmica contagiante e ordenada. Agora me acho melhor. Me acho na minha casa nova num vilarejo perto do mar, nas novas oportunidades acadêmicas de um mundo novo e capitalista que agora me faz mais sentido porque abandonei a culpa cristã que me impunha a bobagem inconsciente de demonizar o dinheiro. O que é isso? Eu amo o dinheiro, amo a vida que ele me proporciona. Amo que ele me ajuda a criar minha filha com a qualidade que muitas crianças infelizmente não têm. Sou grata a ele enquanto sinto e choro por cada criança sem amparo. E amo profundamente a clareza maior de saber que tudo isso se dá sem que eu sirva a ele. Eu sirvo a mim. Eu sou a minha Deusa. O dinheiro me serve! 

Agora, depois da ordem, consigo ler livros, e fazer cursos, e análise. Freud realmente explica! Agora eu sei. Desvendei um mundo interno infinito e parece que foi como num estalo que veio toda a transparência sobre a vida, sobre a minha vida. Troquei todas as lentes já desgastadas. Está tudo nítido.

Cada novo conhecimento me consome como uma avalanche. É tremendo. É determinante pra manutenção da minha força, do meu poder! 

Deus me livre nascer mulher e não me aproveitar de tudo o que vem embutido na gente. Eu sou mulher! E tenho desfeito as ilusões e idealizações que me são impostas. Que nos são impostas. Eu entendo a estrutura do lugar de um homem, enfim. E de onde essa estrutura quis me colocar, eu escapei. 

Olha pra mim, que orgulho! Eu escapei de me submeter! Eu escapo, eu escaparia e escaparei quantas vezes forem necessárias. Eu me alimento com gosto das tantas consciências que me fazem ser realista sobre todas as habilidades que eu preciso desenvolver em qualquer circunstância. Só me aprimoro! 

E se não fossem todos os registros daqui, talvez mais longe desse lugar explêndido eu estivesse. Registros de todos os meus amores românticos e adolescentes, de todos os meus fracassos, das minhas inseguranças, de um sentimento inventado e que eu usava pra justificar a projeção sobre mim mesma a partir do olhar de um outro que eu me apropriei pra tentar me ver melhor por tantos anos, sem dimensionar que esse mesmo olhar me limitava e me podava de tudo o que eu ainda poderia ser por conta própria, por causa de umas regras invisíveis, de uns contratos sem sentido, de umas prepotências inadmitidas por mim. Que loucura. 

Eu não demonizo ninguém, não me vitimizo de ninguém. Eu assumo toda a responsabilidade e é nesse peito aqui que eu bato pra dizer que eu aguentei e aguento qualquer coisa, e me refaço em busca de mim mesma. Nesse peito que já alimentou o maior amor da minha vida. Amor esse que não me envolve na ilusão de que é a única razão da minha felicidade, porque tenho muitas, e também porque estou acordada e quero que o meu amor, a minha menina, também tenha inúmeras razões pra ser feliz. 

Que ela seja livre de mim e se encontre até se bastar também. E sou eu, tudo o que sou e tudo o que sei que vai encurtar esse caminho pra ela. Sou eu quem vai fazê-la entender que ao nascer mulher ela já assumiu o risco de vivenciar violências e que isso é uma realidade, muito provavelmente um fato, mas não a determinará. 

Ela vai transitar aqui nesse mundo bosta sabendo o que ele é e, por mim, vai desviar de todas as agressões e de todos os abusos que vão, invariavelmente, cruzar o caminho dela. E se não desviar ela vai até cair, mas vai cair com classe, vai levantar com força e vai mostrar quem é que manda. E a mãe dela vai estar aqui pra ajudar a mostrar que quem manda é ela! 

Ela é a dancing queen dessa vida. Eu sou. A gente é! Somos invencíveis! 

E, mergulhada na potência que é conviver e interagir com outras mulheres absolutas, num novo mundo que agora habito, eu estou aqui bêbada de mim, de consciência, num espaço aberto, livre e transformador. Estou aqui, como sempre estive, mas em uma casa completamente nova, e numa vida completamente bela! 

Eu 

Estou, 

Mais do que nunca,

PRESENTE! 

Protagonista, dona, proprietária, e absolutamente minha!

The first, the last, MY EVERYTHING! 




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