... Subentenda-me: Carolina

terça-feira, 24 de junho de 2025

Carolina

Eu ouso dizer que poucas coisas são tão complexas e impactantes na existência humana quanto ver ruir os pilares do nosso eu. É forte e intenso a ponto de nos fazer ir buscar explicações sobre o que é isso que paira e ocupa um espaço imenso mesmo depois de deliberadas e intencionais rupturas simbólicas, encerramentos mentais e materiais. Nada. Nesse contexto, ainda que tudo se vá, tudo permanece no mesmo lugar.  

Acredito, agora, que dentre todas as experiências possíveis de serem vividas, aquele acontecimento ou vínculo que quando desmorona ou se modifica nos empurra a quase que compulsoriamente tentar encontrar as respostas de uma vida inteira é, sem dúvidas, a oportunidade de uma era. Ou de todas as eras. E também é uma das maiores dores. 

Diante disso, há dois caminhos: seguir ou paralisar. E é completamente compreensível a vontade de não dar mais nenhum passo adiante que aproxime de descobertas que vão derreter e deixar em carne viva tudo o que se sabe ou se imagina sobre si e, consequentemente, obrigar a reconfiguração de um funcionamento já tão estabelecido e automático da nossa alma errante. 

Esse é o ponto em que todos os erros podem vir a se tornarem acertos. Enfrentar e se agarrar a essa oportunidade assusta porque, sinceramente, quem vai querer acertar enquanto há tantos ganhos secundários em continuar errando? Os erros, as culpas, os arrependimentos, as tragédias, nos garantem vantagens e recompensas quase imperceptíveis que nos fazem querer continuar no engano. 

Eu não quero ganhar com os meus equívocos, meus desequilíbrios e com os erros da minha auto percepção. Não quero ocupar meu tempo me vitimizando com a dor de não me saber, enquanto poderia estar construindo o que de fato deve ser consolidado em mim. 

Por tudo isso decidi seguir o caminho desconfortável de trocar de pele, apesar da dor.  

Essa decisão transforma a mente numa maratonista. A realidade transmuta pra uma psicótica corrida rumo aos esclarecimentos capazes de amenizar tanta dor indefinida, que não se sabe exatamente nem de onde está vindo.

Busquei, inicialmente, pela minha tendência aos misticismos todos. As revelações espirituais explicaram e confortaram, mas não emudeceram a voz que não cala nunca, o grito interno e ensurdecedor que não desiste de perguntar, a todo momento: "quem você é sem isso?". 

E quando nenhuma regressão, apometria, mapa astral, leitura de tarô, conseguiram conter as minhas inquietações, não teve jeito, a única saída foi arregaçar as mangas e mergulhar bem fundo no inconsciente do inconsciente. 

Não sei exatamente como eu cheguei lá, mas cheguei. Não sei quem me levou ou se eu mesma vim me visitar enquanto minha própria consciência de um futuro onde tudo o que acomete as minhas atuais angustias já está repousando em berço esplêndido. 

Cheguei e me vi. Uma menininha tomando vitamina de mamão, sentada numa cadeirinha de balanço verde e branca enquanto, no outro quarto, duas pessoas discutem sobre suas próprias questões relacionais sob o manto da desculpa de que se trata apenas de algum debate necessário para o bom andamento da criação dessa menininha. 

Nunca foi sobre ela, sobre mim. Mas eu não sabia. 

Nessa retrospectiva de vida presente que eu mesma me conduzi a acessar, identifiquei que a gente dá amor da forma que recebeu. Isso é o que nos ensina a amar. 

É uma obviedade, eu sei. Mas é uma verdade pouco apreendida em essência. Acessei essa verdade e agora me questiono o que fazer com ela, uma vez que eu conscientemente entendo enfim que aprendi que só seria amada se atendesse à expectativas outras, exatamente como aquela menininha que recebia muito amor, no entanto apenas se obedecesse e fosse quem queriam que ela fosse. 

Não foi oferecido pra aquela menininha a segurança de se sentir amada independentemente e incondicionalmente. Com isso, foi entendido que só chegaria ao amor a partir da adequação. 

Ela também era o eixo de sustentação daqueles dois adultos. Era o que unia e direcionava seus interesses para um único ponto em comum. Acho pesado isso, tornar alguém tão pequena e frágil responsável por manter uma relação tão deteriorada. 

Por conta disso aprendi que tudo bem sustentar relações pra receber amor. Ser o melhor de mim pra alcançar reconhecimento, elogios e retribuição. 

Toda a base estava pronta pra eu crescer. Ou talvez nem tanto, mas não se pode evitar o tempo e as transformações que ele impõe. 

E então o acaso me direcionou pra que eu, de tão longe, encontrasse alguém cujas faltas preenchiam as minhas na exata medida. O que eu sabia dar era o que esse alguém precisava receber. 

Eu, justamente eu, que só sabia me sentir amada dando tudo de mim. 

E dei. 

O arrependimento não é sobre ter dado tudo de mim. Acredito que quanto a isso ninguém tem culpa porque a raiz do problema é parental e na época dos meus pais as práticas corretas de como se educar um filho não eram tão divulgadas, era uma informação mais restrita. Ou talvez inconscientemente dispensada pelos traumas deles. 

Me sinto de certo modo até compreensiva por pensar assim. 

De toda forma, as coisas são como são e eu teria dado tudo de mim a quem quer que fosse que me desse o mínimo de atenção e retorno positivo. E foi bom me sentir assim, retribuída em alguma medida, requisitada, demandada. Os problemas de fato apareceram a longo prazo. 

No durante eu fui, muitas vezes, até indiferente aos efeitos que me causava amar tão errado. Mas tudo sempre esteve ali, mesmo quando não estava, já que nunca esteve. 

Eu soube o que era mesmo sem saber, porque a natureza do vínculo era o "não ser". Era a dificuldade, a impossibilidade, a disfuncionalidade. Exatamente como aquela união que me botou no mundo. 

E isso me acompanhou quase que a vida toda. Me vi, então, em todas as relações paralelas, em todas as situações, em todas as minhas questões, terceirizando uma avaliação de mim mesma numa busca inconsciente e frustrada pra ser um pouco mais como alguém por quem valesse a pena atravessar o país. 

Nunca fui, nunca alcancei esse ideal de mim a partir da ótica do ideal de um outro tão, justamente, idealizado. Eu criei uma régua invisível pra medir tudo de mim a partir do que eu suspeitava que seria suficiente para um outro que eu também criei. 

Dessa constatação veio a explosão, a carne viva, o caos, a grande revelação! 

Contraditoriamente, ter certeza da veracidade dessa percepção também é a maior das dúvidas. O que é realidade, o que não é? Nada é? E agora, o que eu faço com isso? Aquilo tudo que eu pensei que eu era não era eu? Era eu a partir do que eu quis muito ser pra ser plenamente amada por outro para atender ao seu suposto ideal que eu também inventei? Continuar buscando ser esse ideal de mim mesma a partir dessa régua invisível era manter viva a esperança de um dia poder ser suficiente pra viver alguma coisa com o alguém idealizado mesmo eu já tendo conquistado tudo o que quis? Ou continuar buscando ser esse ideal a partir dessa régua era a forma de manter vivo o vínculo com esse alguém justamente por eu já ter conquistado tudo o que quis? 

Confusão sem fim. Nessa imersão eu me vi vivendo a essência dessa busca inalcançável pra atingir um selo de qualidade imaginário por quinze inacreditáveis anos até quando não havia "presença", até quando eu achava que estava fazendo por mim. 

Eu transferi a responsabilidade de ser eu pra uma consciência desconhecida, hipotética. Eu construí minha identidade a partir de referências não minhas das quais eu me apropriei nem sei de quem. Não sei se de alguém real ou do que eu imaginei que esse alguém era. 

Isso tudo até o ponto em que eu sucumbi. E sucumbi não só ao me sentir sendo simbolicamente inutilizada ou porque escancarei a realidade de estar apenas ocupando um lugar de suporte e esteio. Sucumbi, na verdade, por sentir muito forte a necessidade de não mais me ver dessa forma em todas as minhas interações e por entender que o que me fazia sentir profundo amor também me mantinha refém desse modelo de amor irreal. 

Ao mesmo tempo que é um descanso, um diagnóstico, uma resposta, também é a finalização de muita coisa, em definitivo. Isso é triste, profundo, dilacerante, avassalador. 

Agora preciso redefinir tudo. Eu, o que sou, o que gosto, o que tenho de meu e não meu. Isso tem sido encontro e despedida. 

Tenho, agora, me despedido não só das minhas idealizações de alguém, mas, principalmente, de mim mesma. Ainda não sei ao certo o que fazer mas sinto orgulho por estar fazendo. 

Os resgastes todos dessas consciências embaçadas vieram sem muito preparo e proteção, mas me sinto inexplicavelmente bem amparada e conduzida. Sinto até disposição para continuar descobrindo os véus que me impediam de ver com clareza a mim e a vida. Espero conseguir, gradativamente, trocar essas lentes por lentes minhas. 

A resposta me trouxe certa tranquilidade para seguir sem culpa e sem nomear culpados. Seguir sem me responsabilizar ou me preocupar com meu comportamento, sem pensar em dar espaço pra eventuais retornos por puro vício. Seguir sem questionar se fiz o que era certo. 

Não é sobre nenhuma pessoa, é só sobre mim. 

Ainda existem lugares de mim desconhecidos a serem explorados, ainda vou precisar saber o que fazer e como ressignificar alguém numa nova ausência que agora não deve ser norte pra o futuro do meu eu mas sim apenas a referência do passado que me trouxe até aqui. 

Sinto que não posso descartar e apagar como fiz com tantos vestígios materiais. Aqui dentro de mim existem ainda tatuagens e espero que com o tempo desbotem. Mas algo mudou. Tudo mudou. Vou precisar renomear, reclassificar, reposicionar tudo dentro de mim. A maioria dos personagens, dos eventos, das lembranças. 

Há muito trabalho pela frente e mesmo sem talento pra trabalhos braçais e domésticos, vou enfrentar essa reconstrução. 

Decidi, então, começar a me despedir de tudo o que me induz ao eco de ser quem eu era a partir do que eu achava que precisava ser. E, pra isso, acho que não preciso mais me esconder no "sub" de nada. Decidi que abandonar esse espaço virtual de tantos anos é um bom início.

Sinto que consigo e devo, agora, me fazer ser, de fato, entendida, sem medo de ser quem sou. Sem hesitar, sem amolecer, sem olhar pra trás. 

Confesso que sinto medo, mas bati o martelo para dar início às minhas obras naquela terça de manhã, quando encarei essas verdades num silêncio melancólico de quem não pode chorar que nem criança, mas por dentro estava sangrando, sentindo abertas todas as minhas feridas anestesiadas pelo tempo. 

Pensei na responsabilidade que carrego agora que estou educando e ajudando um ser gerado por mim a formar o íntimo do íntimo do íntimo das suas relações futuras. Pensei no quanto quero fazer isso direito, dar o que não recebi, fazer todo o compliance da estrutura emocional dela ser eficiente, trabalhar preventivamente pra que tudo dê certo e ela saiba como lidar com as adversidades que inevitavelmente vão surgir exatamente porque recebeu o suporte inicial para construção de uma casa interna segura e confortável.

Pensei no quanto quero ensiná-la a se amar direito, enquanto me apertava o peito e o choro ficava empurrando as paredes da minha garganta por entender que ninguém me ensinou a me amar direito.

De repente voltei pra mim e interrompi esses devaneios agudos. Guardei a dor no bolso e precisei sair para ir até a reunião do colégio da mencionada filha que quero criar sem tumultuar todas essas complexidades do "eu".

A caminho da reunião decididamente afirmei pra mim mesma que me tornarei quem ela e aquela menininha que tomava vitamina de mamão precisam que eu seja. E por elas vou adiante, ainda que doa, ainda que eu estremeça ao longo dessa empreita. 

Logo em seguida recebi outra confirmação. Peguei o celular e fui convidada pelo spotify a ouvir um álbum novo de um artista que gosto. Me chamou a atenção uma música com meu nome. O ar condicionado do uber estava quebrado, o vento me bagunçava os cabelos. Coloquei os fones e ouvi um recado certeiro, emocionante, me dizendo pra continuar essa tarefa de renovação de mim. Sorri feliz com as lágrimas que enfim deixei cair. 

Ainda ouvindo, fechei os olhos e pensei: 

"É, Carolina, agora finalmente vais olhar com calma a janela."




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