... Subentenda-me: O cobrador

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O cobrador

Eu estava no ponto de ônibus, e ao lado havia um moço que, até então, estava pouco notável para mim. Ele usava um terno, parecia ser normal, não muito velho e nem muito novo. Ele fez sinal para o mesmo ônibus que eu. O ônibus parou mais perto de mim do que dele, então subi. Quando entrei no ônibus pude perceber que o moço não era um moço tão normal assim. Ele devia ter alguma doença, não sei exatamente. Seus movimentos eram limitados, e ele possuía uma feição um tanto quanto estranha. Fiquei perplexa por alguns segundos, e até me sentindo mal por ter subido antes dele, mas nada que me fosse causar uma enorme culpa de imediato, já que eu realmente não havia percebido as suas reais condições. Passei pelo cobrador, que, aparentemente, seria mais um dos que me ignoram até o fim da viagem sempre que pego um ônibus. Paguei minha passagem, fui em direção ao banco. O senhor da parada de ônibus sentou no assento preferencial para deficientes físicos. Logo me foi da memória a minha displicência em relação àquele feito. Sentei perto da janela, como sempre faço. Segurei minha bolsa, arrumei meus cadernos, tentei me sentir confortável mesmo sentindo tanto calor e estando com muita pressa pra chegar em casa e cuidar de todos os meus compromissos atrasados. De repente meus pensamentos tolos, cansados e fúteis, sofrem uma singela ruptura causada pela voz do cobrador em alto tom direcionada ao motorista:

- "Pois é, minha mãe sempre dizia que educação a gente recebe quando ainda é criança."

Imediatamente associei ao ocorrido de poucos minutos antes, quando eu subi na frente do moço deficiente, sem haver uma intenção da minha parte. Não que eu tenha uma real mania de perseguição, mas fazia todo o sentido aquele comentário ter sido feito pra me atingir. Então me veio um sentimento absurdo de culpa, de constrangimento. Sim, pois qualquer um que tivesse prestado atenção na minha atitude, certamente consideraria a indireta do cobrador como sendo direcionada à mim. Fiquei vermelha, pálida, azul. Não de vergonha, mas sim de uma intolerância à aceitar que, graças à minha distração, consegui ser taxada como egoísta, mal educada. Defeitos que eu, durante toda a minha vida, procurei afastar de mim. A vontade era de pedir desculpas, discursar e dizer que não, eu não havia tido a intenção de ser tão mesquinha e não prestar atenção nas necessidades dos outros. Eu quis levantar e dizer pro cobrador:

- "Ei seu moço, o senhor está falando comigo? É isso mesmo? Olhe, a minha mãe me educou perfeitamente bem. Eu sei dizer obrigada, eu sei pedir licença, eu sei deixar um deficiente passar. O senhor não acha um tanto quanto rude da sua parte esse constrangimento que acabou de me fazer passar? Eu não tive culpa, se lhe interessa saber... Eu não vi como ele era, e tá certo que mesmo que ele não tivesse limitações e ainda assim fosse um pouco mais velho eu devesse dar passagem a ele, mas que culpa eu tenho, seu moço? O senhor não viu que o ônibus estava mais perto de mim? O senhor parou pra se perguntar se eu olhei e vi que ele precisava de uma ajuda? Peço grandes desculpas, moço, por ser distraída, por não ter havido uma cortesia da minha parte. Mas me diz, que culpa eu tenho?"

Certamente o cobrador não se daria ao trabalho de me responder, de me criticar diretamente, de aceitar o fato de que tinha me julgado mal. Sim, ele tinha me julgado muito mal. Eu engoli a seco as minhas vontades. Fiquei quieta, sentada, torcendo pra chegar em casa e poder descer logo daquele cemitério de conclusões precipitadas. Quando cheguei, guardei as coisas, os cadernos, tirei o uniforme, e tudo aquilo ainda permanecia em contraste junto das outras emoções que carrego. Deitei, parei pra pensar. Cheguei a conclusão de que, é, somos assim mesmo. 

A nossa mania de politicamente correto não nos permite analisar nada, entender nada de imediato. Atos propositais são tão comuns e estão tão enraizados nessa crença que alguns têm de sempre querer se dar bem e passar por cima das pessoas, que quando não há o propósito é proposital do mesmo jeito. Eu não paro pra pensar, eu acharia feio se não tivesse acontecido comigo. Só assim a gente percebe o quanto é cruel de vez em quando. 

Certo que existem outras crueldades, outras situações complicadas, outras deselegâncias, mas é como dizem: "Pimenta nos olhos dos outros não arde". Eu acho válida a reação do cobrador. Agora acho. Mesmo tendo me feito sentir a erva daninha do jardim, ele tem razão. Por um lado é bom perceber que tem gente que ainda se esforça em ver a cortesia, a bondade. É, é muito bom. Mesmo tendo sido uma acusação inválida, teve fundamento. Mas o bom mesmo é saber reconhecer os dois lados, procurar entender pra poder julgar, e procurar entender pra aceitar o julgamento. Da minha parte só houve o entendimento pra aceitar o julgamento. Da parte do cobrador não houve entendimento nenhum por eu não ter tido tempo de me explicar e explicar que eu não tive a intenção. 

Agora, levando em consideração o ocorrido como uma lição pra vida da gente, é assim mesmo. Quando não achamos apropriada uma atitude, poucas vezes vamos até ela pra tentar entender se foi intencional. Julgamos, condenamos, crucificamos na nossa praça pública pessoal toda e qualquer situação que foge dos padrões éticos pra uma vida em sociedade. Mesmo que um pensamento, uma discordância, uma conclusão, estejam certos, poucas vezes paramos pra pensar se são justos. Não que o cobrador tivesse a obrigação em saber a minha intenção, mas que a maioria das atitudes, das decisões, dos julgamentos diários, pudessem ser melhor analisados. É todo mundo com todo mundo, e nem todo mundo presta atenção. Estar do lado do certo, nem sempre é estar do lado do justo. E ainda que seja uma obviedade, passa a ter mais valor quando é com a gente. Vou levar pra vida. 

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