Dia amarelo, cinza, cor de quase choro. Eu de pijama e um coque no cabelo, sutil ao ponto de me afundar nos meus travesseiros e achar tudo muito bonitinho. O coque, o pijama, a cor do dia que espera a chuva. Ela veio logo mas levou o sinal da tevê, levantei pra passear pela casa, esperar "Friends" voltar pra minha tarde melancólica. O meu corredor é pequeno mas por algum motivo, naquele momento, me parece um labirinto levemente amável e comprido. Eu nunca havia reparado no quadro que eu mesma escolhi para aquela parede de tijolinhos irritantes. Lembro muito bem do dia, da hora, da loja, e do que pensei quando apontei para a pintura com moldura de alto relevo atraente. A vista parece ser de um quintal, uma janela que dava de frente para os fundos de casas antigas. Lembro da sensação de pensar em alguém ao ver o quadro, as casas, as montanhas escondidas quase no fim do desenho estreito. Era bom. Eu esqueci de notar meu quadro em contraste com os tijolinhos, e quando notei senti uma calma tão forte quanto a água que caía lá fora. Os tijolinhos, o quadro, a chuva, eu, meu coque de cabelo, o pijama e a cor de vento frio, cor de laranja triste dentro da minha casa. Ando, ando, ando, paro, sento, penso. Eu que sempre gostei tanto de tudo, de alguém, do mundo, esqueci de reparar. Reparar em tudo que eu gostei dentro de um impacto inicial. Era só inicial. Por que bonito no início, só no início? Eu embrulhei meu encantamento em um papel de presente e coloquei no cantinho de mim, esqueci de abrir. Eu quis muito, muito, lembrar de tudo que eu deixei no meu cantinho. Lembrei aos poucos do mais simples que me trouxe paz no início, desembrulhei só o que dava pra alcançar. Lembrei que quando nos mudamos, há uns três anos atrás, eu adorava ver o cajueiro do terreno em frente à minha janela. A vovó adorava apontar os Cajus maduros, os passarinhos comendo. Eu esqueci, eu lembrei, eu parei em frente à janela, com os tijolinhos, o pijama, o coque, e tudo, e tudo. Meu cajueiro não saiu do lugar. Que chova, então. Que chova agora na minha tarde de cor branda, que chova no cajueiro em frente a minha janela, que o meu quadro continue lembrando todo o bonito que eu sinto no início de tudo, que eu quero sentir sempre. Já não me deixo mais cegar pela beleza inicial, o durante é eterno e generoso. Que dure meu cajueiro, meu quadro, a cor da minha tarde, a limpeza da chuva, o meu coque, o meu pijama. Que dure.
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