Quero ouvir música boa, quero admirar as obras de artistas plásticos revolucionários, com muito mais delicadeza do que simplesmente ficar impressionada ao ler a respeito em uma revista de arquitetura na sala de espera de uma clínica médica. Quero mais dessas chuvas de meio-dia que molham os meus cadernos e deixam eles com aquelas ondulações feias mas presentes nos livros de ensino médio de todo mundo que se protegia colocando eles na cabeça. Quero conhecer gente nova e desapegar, sim, desapegar. Desapegar de palavras tristes vindas de uma discussão feia, dolorida e desnecessária. Desapegar de uma só companhia, de uma só rotina, e do meu péssimo hábito de fazer rascunhos e não passar a limpo. Quero aprender a viver bem com o meu desalinho, com a minha inconstância insistente e desprovida de argumentos bons. Quero não ter argumentos bons e não falar sobre eles, não quero mais tentar explicar o que nem eu entendo. Quero saber escrever uma redação em cinquenta minutos e saber diferenciar toda a distância percorrida da ultima parte do trajeto. Quero o mesmo frio na costela que me deu no dia que o Ben Stiller planejava assaltar um banco. Quero o ponto do ônibus mais bonito, como poucas vezes foi. Quero aprender a dirigir e poder dizer que vou comprar alguma coisa mas só pra parar o carro no estacionamento, ligar o som e chorar os meus choros acumulados escondido do resto do mundo pela película escurecida. Quero ler pra sempre os poemas de Camões e achar lindo aquele questionamento antecessor do barroco que já se perguntava timidamente: "Pra onde a gente vai?". Quero não saber pra onde eu vou, quero não insistir em prever. Quero continuar respirando fundo e sentindo meus olhos encherem de lágrimas sem derramá-las. Quero ser um carbono quiral porque só hidrogênio cansa, e cansa demais. Quero ter tempo pra querer, porque ultimamente só o tempo me tem e não quer. Eu quero.
Nenhum comentário:
Postar um comentário