... Subentenda-me: Querências

sábado, 17 de março de 2012

Querências

Quero ouvir música boa, quero admirar as obras de artistas plásticos revolucionários, com muito mais delicadeza do que simplesmente ficar impressionada ao ler a respeito em uma revista de arquitetura na sala de espera de uma clínica médica. Quero mais dessas chuvas de meio-dia que molham os meus cadernos e deixam eles com aquelas ondulações feias mas presentes nos livros de ensino médio de todo mundo que se protegia colocando eles na cabeça. Quero conhecer gente nova e desapegar, sim, desapegar. Desapegar de palavras tristes vindas de uma discussão feia, dolorida e desnecessária. Desapegar de uma só companhia, de uma só rotina, e do meu péssimo hábito de fazer rascunhos e não passar a limpo. Quero aprender a viver bem com o meu desalinho, com a minha inconstância insistente e desprovida de argumentos bons. Quero não ter argumentos bons e não falar sobre eles, não quero mais tentar explicar o que nem eu entendo. Quero saber escrever uma redação em cinquenta minutos e saber diferenciar toda a distância percorrida da ultima parte do trajeto. Quero o mesmo frio na costela que me deu no dia que o Ben Stiller planejava assaltar um banco. Quero o ponto do ônibus mais bonito, como poucas vezes foi. Quero aprender a dirigir e poder dizer que vou comprar alguma coisa mas só pra parar o carro no estacionamento, ligar o som e chorar os meus choros acumulados escondido do resto do mundo pela película escurecida. Quero ler pra sempre os poemas de Camões e achar lindo aquele questionamento antecessor do barroco que já se perguntava timidamente: "Pra onde a gente vai?". Quero não saber pra onde eu vou, quero não insistir em prever. Quero continuar respirando fundo e sentindo meus olhos encherem de lágrimas sem derramá-las. Quero ser um carbono quiral porque só hidrogênio cansa, e cansa demais. Quero ter tempo pra querer, porque ultimamente só o tempo me tem e não quer. Eu quero.

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