Caixinha de chiclete, bilhete de cinema, roupas do antigo namorado. Detalhes. A roupa quando era dele não tinha tanto valor, passou a ter depois que foi sua. O bilhete do cinema serviu pra vocês sentarem naquela poltrona, rirem, trocarem carinhos, beijos. Você guardou. A caixinha do chiclete que ele comprou, te deu e você colocou no bolso sem a pretensão de criar um relicário com os detalhes de vocês. O extrato que o correio te deu depois de você enviar a carta, um pedacinho do cartão do dia dos namorados que você guardou depois de, impreterivelmente, ter rasgado o resto dele com ciúmes de outra, loguinho após vocês terminarem. Você guardou um pouco do perfume que usava quando estava com ele e de vez em quando vai lá se transportar para aquela realidade boa que não volta nunca mais. Ele deixou a cara do dia nublado, triste e desfocado, muito mais atraente. Vocês estavam juntos, sentados na calçada, enquanto esperavam a chuva passar pra ele poder ir embora. A chuva passou e ele não foi. Você guardou em um arquivo especial aquela conversa que te fez chorar. O nome do arquivo é o nome dele. Você guarda todo o palpável em uma caixa grande, ali na sua prateleira mais alta. As cartas que fez e nunca mandou, o seu nome com o sobrenome dele em um pedacinho de papel, escritos bem no auge do seu devaneio amoroso. Você lembra dele com carinho quando usa a mesma roupa que usou quando estavam juntos. Você olha pela janela do carro e sorri lembrando de coisas que só ele dizia. Você não apagou as mensagens de bom dia no celular, você não vai apagar nem quando a memória estiver cheia. Literalmente, nem quando a memória estiver cheia. Aos poucos constrói um museu do que é você, do que foram vocês, todos, juntos. Cada um com a sua importância única, seja na caixa da prateleira, no arquivo, na blusa que era dele e você achou outro dia sem querer. Você guarda em você. A saudade, os detalhes que são muito mais do que a descrição contada para as suas amigas. Elas não vão saber. Assistir uma aula, ouvir o professor falar sobre algo que vocês sabiam tão bem nas suas conversas, nas suas conclusões sobre a vida, só de vocês. Mas então o tempo passa, logo você percebe que foi feita pra acumular as caixas, eles, você. Você foi feita pra sentir saudades dos detalhes deles e dos próximos detalhes... Cadê?
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