É quando as noites decidem fazer mais frio e a televisão, coincidentemente, decide colocar um filme romântico depois da novela, que as mentes solitárias começam a trabalhar a aversão de permanecerem sozinhas. Com Gustavo não era diferente, pois logo ao anunciarem "Titanic" na programação ele começou a suar frio, dilatar as pupilas, revirar o estômago. Pois é, pode parecer exagero, mas Gustavo já não estava na faixa etária comum de se arrumar um casamento. Seus relacionamentos traumáticos o deixaram bastante ansioso, nervoso e medroso quando se tratava de encontrar alguém pra esquentar o outro lado da cama. Depois de ficar se afogando novamente em seus naufrágios anteriores, Gustavo decidiu dar um jeito naquela cama vazia, naquele outro travesseiro que nunca se amassava. Sentado no sofá, enquanto ainda estava perturbado por conta do filme, da noite e da sua realidade solitária, ele pensou em um jeito. Formulou uma solução na sua cabeça predominantemente matemática, que sabia muito de números, aulas e tubos de ensaio, mas quase nada do que seria alguém do seu lado pra assistir o clássico dos dramas românticos. Ele então montou rapidamente um plano, aparentemente fácil na teoria mesmo se tratando de encarar uma possibilidade nunca antes considerada. Também era extremamente difícil, pois, na prática, Gustavo tinha um certo problema em tomar iniciativas. Começou a andar pelo apartamento confortável e recém comprado graças a sua então estabilidade financeira. Ele estava ponderando os prós de ter alguém pra fazer companhia, mesmo que de um jeito informal, e os contras que se resumiam justamente no jeito informal que tudo iria acontecer. Ele já havia ouvido falar nos anúncios de jornal na seção "Amizades" dos classificados. Moças que prometem um carinho momentâneo aos tais carentes que tinham como pagar. "Desde a Lalinha, quem foi a última moça que entrou aqui mesmo?", ele se perguntava. Depois de quase fazer um buraco no chão de tanto andar pra lá e pra cá, Gustavo, já maduro com seus quase 40 e sem amor de verdade, decidiu deixar de lado seus delírios românticos, sua coleção de poemas do Drummond, e o sonho de sua mãe, Dona Cida, de ter uma nora simpática, bonita e muito bem resolvida. Ele achou que estava na hora de agir como um homem, nem que fosse como aqueles que satisfaziam seus desejos com as superficialidades e as esquinas. Ele ligou: "Alô, quem fala?", uma moça de voz atraente perguntou. Gustavo tremeu, hesitou, mas respirou fundo e respondeu com o peito estufado: "ÉÉÉ... hm, argh... Eu gostaria de uma pizza mista e outra de marguerita, por favor".
É, Gustavo era péssimo em tomar iniciativas ousadas, mas sabia escolher o sabor de uma pizza como ninguém.
É, Gustavo era péssimo em tomar iniciativas ousadas, mas sabia escolher o sabor de uma pizza como ninguém.
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