... Subentenda-me: Depois de sete dias.

domingo, 20 de outubro de 2013

Depois de sete dias.

Eu concordo que a gente tem que viver cada momentinho inconsequente, sair por ai encostando em qualquer vaga disponível pra esquecer do mundo do lado de fora. Concordo que a gente tem é que mandar todas as proibições pro espaço mesmo, não se importar com as exigências que as nossas outras escolhas nos impuseram porque, que se dane, o que vale é ali e agora. Mas eu discordo. Discordo porque acho que não dá (não mesmo) pra ignorar e ser indiferente quando não estamos mais na zona da vontade de permanência sem maiores envolvimentos, quando já não estamos ali pelos mesmos motivos que nos fizeram ir inicialmente. Mudamos. Mudamos os nossos interesses e as nossas disposições. Sem perceber, mudamos. E o mais vulnerável sempre foge. Em qualquer situação sempre há quem seja mais frágil e não suporte e não aceite (ou não possa) se dispor a viver como dá depois de ter ultrapassado o limite entre a indiferença e a mínima afetuosidade. E que eu me afetei com um certo afeto imprevisível é fato. Mas eu também sei girar, girar, girar, sentar no sofá, respirar fundo, fechar os olhos, sentir todo o meu corpo entrar em confronto armado contra a minha tontura e esperar passar. Passa. Depois de sete dias eu me refaço, tal como Cubas. E esqueço.


"Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era preciso viver." - Memórias Póstumas de Brás Cubas

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