... Subentenda-me: Cansada

domingo, 13 de outubro de 2013

Cansada

Hoje eu queria dizer que cansei. Cansei do desamor e da minha desorganização. Cansei de não descansar, de não fazer a cabeça parar de pensar, de se perder, de querer. Querer um amor, um gole, um porre pra esquecer. Cansei de sonhar voltar e ver uns certos olhos com aquelas certas cores olhando pra tudo em volta, afoito. Cansei da esperança de sair e encontrar, e não encarar e abaixar a cabeça pro mundo porque ver de perto o que fica longe dói mais do que nunca ver qualquer coisa que eu tenha querido ao meu lado. Cansei de escrever pra que alguém entenda se ninguém me lê. Se eu, ao ler depois de muitas translações, não lembro do que eu entendia. E não lembro mesmo. Não lembro do impossível que eu tanto admirava e respirava e gostava de viver, não lembro do sépia que eu me convencia como sendo meu tom preferido. Não lembro dos dias que eu descrevi, das ilusões que eu inventei. Cansei de me esforçar pra lembrar lembranças apagadas pelo tempo, pelas outras lembranças, pelas outros dias e outros sonhos e outros tons e outras possibilidades. Cansei de morar com as minhas insatisfações insistentes porque sei agora que elas se mudam aos poucos, levando caixas de pertences com fotografias e músicas e cheiros e gostos sem que eu perceba. Cansei de me negar a existência das substituições. Cansei e dizer algo insubstituível, inesquecível, irresistível. Cansei de mentir. Cansei de me impedir de olhar pro novo se é o velho que faz meu coração bater mais forte.

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