Tenho feito muito pela minha soberania psíquica, pela reestruturação da minha identidade, pra que ela exista e se solidifique sem a interferência persistente do olhar do outro. Isso tem sido motivo de orgulho — o que não significa que eu já tenha concluído o processo. O processo é que tem me orgulhado.
No presente momento da minha vida consigo compreender que essa nova identidade da qual preciso me apropriar, a qual sofre menores interferências, não existia até então porque estava programada pra viver e crescer alienada.
Essa programação não decorre apenas dos eventos da minha infância, mas sim, principalmente, da própria estrutura social e patriarcal que empurra as mulheres pra serem silenciadas, se distanciando continuamente dos seus desejos.
Tal estrutura, inclusive, é que fundamenta os eventos da minha infância — e da infância de todas as mulheres, eu diria.
Fomos criadas pra não nos reconhecermos enquanto seres desejantes porque isso mantém o controle das nossas vidas resguardado às figuras masculinas que se beneficiam da solidez do patriarcado. Esse é um fato indiscutível, em que pese agora esse cenário esteja sendo gradativamente desconstruído por mim e por muitas outras.
Faz parte dessa desconstrução, do desmantelamento dessa estrutura, a tomada de consciência, o despertar, a tragédia que inevitavelmente rodeia a definição de limites claros.
Não é fácil desmontar um palco onde os malucos ainda dançam, enquanto dançam. Requer, sem dúvidas, uma maluquice maior. Requer coragem pra ser intolerante com o intolerável. Requer bravura pra gritar o que não se aguenta mais engolir em nome de papeis impostos: o cuidado, o carinho, a proteção. Esses papeis que inconscientemente assumimos e que agora não queremos mais executar.
Eu não quis, e por isso rasguei uma roupa que sempre vesti e me coube, pra tentar me desprender das tantas amarras que me imobilizavam por eu ter nascido inserida nesse universo de silenciamentos.
Tenho feito isso de um jeito esplendoroso, admirável, sem, no entanto, me exigir resultados rápidos. Tenho respeitado meus processos, sem interrompê-lo. Fazendo pequenas emersões à superfície pra respirar, tomar fôlego, e continuar mergulhando. Não tenho me sobrecarregado, não tenho exigido de mim além do que posso dar.
Sem correr, mas também sem paralisar, sigo destravando cadeados e mudando de fases de um jeito fluido e compreensivo comigo mesma. E uma das ferramentas que tenho utilizado é a escrita de textos imensos que me esclarecem e me ajudam a desbravar tanto chão a ser percorrido.
A exemplo disso, esse texto. Esse texto cujo ímpeto da elaboração surgiu após eu ler Água-Viva, de Clarice Lispector. Sinto que me preparei a vida toda pra estar pronta pra ler Clarice Lispector. Não canso de dizer.
Lendo Água-Viva me encontrei com alguns novos questionamentos, muitos insights, e choros inesquecíveis. Foi necessário e fortalecedor ler esse livro exatamente quando li.
Entre tantas novas questões, o tema "desejo" martelou com força. Eis então o link com a minha longa introdução.
De posse do conhecimento de que fomos criadas para não desejar, ler Clarice é disruptivo: ela dá permissão ao desejo, aos renascimentos em nome de sermos libertas pra desejar.
Mas libertas de quem? Quem é esse outro que nos proíbe de desejar? A quem demos esse poder exatamente? Alguém que é alguém e não a estrutura em si? Ou a estrutura e qualquer alguém são a mesma coisa quando esse alguém encontra benefícios dentro dessa estrutura?
De toda maneira, sendo o outro quem quer que seja, nunca deixará de ser objetivamente parte do todo se há um ganho, uma sorte, um prêmio a partir da nossa desaceleração, do nosso não agir, do nosso impulso de recusa — ou de aceitação — controlado e domesticado.
E então Clarice vem e me fala de uma gata parindo! A gata parindo que na verdade remete à castração de um ideal simbólico, de um amor simbólico. Nascimento, separação, liberdade.
Castrar para nascer. O corte. Fazer um corte para nascer de fato. Antes disso o que havia? Uma unidade, penso eu. Antes disso havia uma gata que carrega algo no ventre e desse algo não poderá nunca se desfazer sem que haja um rompimento.
"Romper o cordão umbilical com os dentes".
Para nascer é preciso romper. A liberdade do nascimento vem de um corte, de uma brecha que se abre. Essa liberdade que é, também, solitária.
Cortar um ideal simbólico, entendendo esse ideal simbólico justamente como sendo esse outro — ou outros — que silencia desejos é o nascimento que liberta.
Da minha perspectiva essa libertação conversa diretamente com a minha necessidade de recompor minha identidade distante de influências limitadoras, distante de um eventual espelho que me estruturou enquanto pessoa. Limitar desejos aqui poderia ser lido como a proibição para desejar indiscriminadamente, sem regulações imaginárias a partir, justamente, de um outro que me apresenta o que é desejável e o que não é!
Uma gata parindo pode também ser o ato de quebrar um espelho. É sobre o corte, a ruptura, a quebra, o desfazimento.
Pra que algo nasça é preciso rasgar a placenta, cortar o cordão. Para deixar nascer essa identidade livre precisei fazer cortes, quebrar espelhos. É a liberdade de permitir um nascimento, a independência de uma imagem refletida em espelho novo.
E esse processo além de solitário, é doloroso. A gata parindo e o espelho quebrando. Tudo dói. Dói parir, dói não me ver refletida em lugar nenhum. Mesmo que esse lugar representasse a impossibilidade de manifestação livre de desejos, era lugar conhecido, onde se sabia ser quem se era.
É um novo espelho que reflete a nova identidade agora. Há o estranhamento. Há a solidão de não saber quem se é porque esse novo reflexo nunca foi visto antes. Dói a solidão desse desconhecimento.
Mas, ainda assim, apesar de forte e doloroso, é possível sentir que existe amor. A placenta do apego foi rompida, doeu, mas existe amor. É um amor que separa o que sempre esteve íntegro, que elimina o que era conhecidamente familiar. E, por ser amor, é o que sustenta.
É amor que vem da liberdade da separação. A separação que liberta para que se viva distante do que regulava o desejo.
Segue doendo o meu nascimento, a quebra dos espelhos, mas, como bem lembra Clarice, "nós só nascemos para nós mesmos quando nos separamos". Isso vem desde o furo narcísico, desde quando ser recém-nascido era literal.
Estou buscando nascer pra mim. Eu sou a gata parindo enquanto quebro espelhos.
“Esta é a base da minha tragédia".
Nesse processo — que talvez ainda esteja acontecendo, não sei ao certo porque a dor atordoa e a gente fica meio sem se situar — houve instinto, houve raiva, houve gatilho.
Eu comi minha própria placenta, como a gata, pra sobreviver. Antes eu era alimento de outro, de outros, até que passei a comer a minha própria placenta.
Esse antes, enquanto eu era alimento, representa o desejo por quem limita o desejo.
Dei de mim sem dar a mim porque, de certo modo, nutrindo o outro eu também me acessava, me via refletida na melhor e mais idealizada versão.
Antes, eu existia em dinâmicas de doação unilateral. Dinâmicas essas ensinadas, programadas pra se darem exatamente dessa maneira. Cresci pra isso, pra acreditar que essa doação é o que traduz quem se é. Muitas ainda acreditam.
Eu me privava de me alimentar de mim para manter o outro vivo, sem perceber que existem outros "its", existem alimentos dos quais preciso me alimentar antes de pensar em alimentar o outro.
Clarice é visceral e me ensina que posso morrer pra nascer infinitas vezes se for necessário. Sem medo, porque viver é isso! Viver é reconhecer desejos, lutar por eles, entregar, perder, pular de abismos que também são espaços pra bater asas. Sem isso não há vida, não há jogo.
Eu, enquanto gata que está parindo, que comi e ainda como da minha própria placenta, que cortou cordões, que quebrou espelhos, que sofreu a dor de separações... eu quero nascer e me alimentar de outros "its" porque não posso me negar a vida.
Aceitei, antes de tudo, a nova vida, a nova identidade, com tudo o que ela exige: amor, dor, desejo, separação, transformação.
Sem isso eu estaria me suicidando diante da vida, me rendendo ao que me limitava desejo, ao que me ensinaram a ser. Abdicando da singularidade de ser quem sou, da grande oportunidade que é nascer de novo. Ser eu, espécie raríssima, com a capacidade de sentir, pensar e existir exatamente do meu jeito.
Mas, ainda assim, surge a dúvida: como romper placentas pra me distanciar do que me limitava o desejo se o que me limitava desejo também era desejo? A contradição enlouquecedora me abateu, sim. Enquanto a dor doía, essa pergunta ruminava. Um enlace paradoxal.
Paro de nascer ou continuo? Se estou nascendo para desejar e o que desejo também limita o meu próprio desejo, então vou começar a liberdade de desejar não desejando? Mas eu quero desejar qualquer coisa, é justamente pra isso esse parto.
Eu não quis desistir do parto e sigo parindo. Quis me desfazer dos aspectos todos que me entrelaçavam ao meu desejo carrasco, achando que eu só poderia nascer para mim com a separação e, nesse ponto, acreditei na separação como sendo a negação da existência.
Errei.
Negar existência é manter unidade, porque se não existe não deixa de ser, apenas deixa de estar. Se de fato não fosse, não precisaria ser negado. Negar a existência só mantém oculto o que nunca foi embora e está escondido. Negar a existência é auto engano.
Por sorte logo chegou a ajuda: Clarice me veio dizendo que viver também é suportar a verdadeira vida num equilíbrio trágico entre "entregar-se e preservar-se, queimar-se e salvar-se".
O enlace paradoxal não precisa se resolver, afinal. Isto porque não há lógica, não há como alcançar o total entendimento racional sobre a vida e sobre mim. E se não há explicação racional é preciso abandonar a necessidade de compreender.
Clarice me disse que viver é se segurar nessa verdade latente da força que pulsa dentro, mesmo sem provas ou coerência.
Isso responde que não preciso parar de parir porque minha liberdade de desejar não se compromete em nada pela existência do meu desejo ao me limita. Existe e pronto, não há explicação. Essa é uma verdade latente de força que pulsa.
Haveria, então, liberdade em manter aquilo que não me liberta?
Essa resposta me atravessa o encantamento e o entendimento maior sobre a liberdade: ela é ilimitada. Não manter qualquer desejo que existe, mesmo que racionalmente não deva existir mas ainda assim continua existindo, pulsando, é o que prende, é o que compromete a liberdade.
"Preservar a chama do meu desejo". Esse desejo é o que me faz seguir sendo única na minha espécie, na minha singularidade. E assim não me rendo à exigência de explicar, negar, reprimir o que não se pode evitar.
Liberdade também é aceitar tudo o que não se traduz como sendo o que é. Eu, o outro, o desejo que persiste, as coisas como foram, as coisas como são, as coisas que nos fizeram sermos quem fomos até o ponto de precisarmos nascer de novo...
Segui me fazendo perguntas. Temi que a "não compreensão do que por si só se explica" pudesse me aprisionar novamente do real, do que é sólido, do racional, do consistente.
As novas respostas me conduziram delicadamente à necessária lucidez quanto ao equilíbrio entre a realidade e a manutenção do que me é e sempre será subjetivo.
O subjetivo que me define a existência, que está, também, nos eventos da infância e na realidade social patriarcal inconscientemente imposta. Que está em tudo que me limita mas também me torna quem sou.
Eu sou, e sempre serei, o que transita no simbólico de mim, nos meus "its", no outro alienante mas também objeto de desejo.
Meu "it" maior é minha alma e ela se faz de coisas imateriais que não posso negar pois se o fizesse estaria negando a mim própria.
Viver longe do fogo que me aquece a alma, que é prejudicial mas ainda assim aquece? Pra não me queimar? E eu morreria de frio?
Eu, que já me queimei inteira, que já estive em carne viva. Eu. Logo eu. Negar um fogo de vida agora?
É válida a preocupação e o medo de manter acessa a chama do desejo que pode me limitar dos meus próprios desejos outros. Não é irrelevante considerar que esse medo existe pra que eu não me permita seguir existindo prisioneira. Mas estou parindo, fiz cortes e quebrei espelhos.
Ainda que eu ainda esteja nascendo, já rasguei a placenta de toda maneira. Não há volta.
A liberdade canta.
No simbólico de mim ainda mora a realidade de que esse outro alienante também me empurrou para o encontro com uma parte de mim mesma. O outro não é só o outro, em alguma medida o outro também é quem eu fui.
Ainda que nesse ponto me apareçam novas perguntas saltitantes que questionam o que é meu e o que é do outro, lembro rapidamente que se eu pulsei num lugar que o outro me deu e lá me reconheci, é tudo meu.
Se em outro momento houve desequilíbrio e dei ao outro o protagonismo pra representar a chama do meu desejo, hoje sei que não mais.
Não mais porque eu sou a bendita de uma gata parindo!
Clarice me encaminha e acalma ao me dizer muito intimamente que esse outro não me faz conter, mas me faz pulsar pela transformação, pelo meu nascimento, pela liberdade. E eu não habito mais o "it" da minha alma pra encontrar o outro como um objeto de desejo impossível que quanto menos tenho, mais eu quero. Preservo o outro apenas naquilo que me devolve a mim, no que me ativa meu encontro comigo.
Eu, nascendo agora, só quero o outro de impulso pra sempre me submeter ao meus nascimentos. Ainda que doa. Esse outro, qualquer outro, o outro estrutural. Só quero como elo entre todas que serei e a minha subjetividade que justamente impulsiona a esses tantos nascimentos.
Os outros que eram desejo alienante, limitadores de desejo, agora não são mais. São o que me joga à liberdade de quem deseja sem amarras. Os outros que não são mais sujeitos do meu desejo, mas sim objetos. Os outros que não são protagonistas de uma imagem ideal, de uma fantasia, de um sonho paralisante, de uma régua de mim mesma. Os outros só são auxiliares.
Esse outro, esses outros, não proíbem e, assim, o paradoxo está enfim desfeito.
Esse outro, esses outros, é, são, fósforos que acenderam a chama do meu desejo. Mas eu sou a chama! Sigo acessa mesmo sem esses tais fósforos. Me acendo sozinha, se precisar. Minha chama acende da minha própria eletricidade. E estou finalmente livre pra não medir a altura dessa chama, a intensidade dos meus desejos.
Quem queima, quando queima, onde queima... sou eu.
Deixei todos os outros quando cortei o cordão, quando quebrei os espelhos, por não sustentar mais a forma antiga de mim.
Enquanto outros comem de outra fome, do alimento e da nutrição de outros, eu, gata parindo, tal como Clarice, seguirei me alimentando de mim, da minha placenta, do meu leite, todas as vezes que eu precisar nascer. Serei a chama, todas as vezes que eu precisar queimar. E quebrarei todos os espelhos que fizerem eu me enxergar distorcida de mim.
"Sinto que estou parindo. E é florido como um parto".
Texto escrito em: 25/09/2025
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