Um sonho espiritual. Algo transcendia e eu admirava. Algo sem definição porque, nesse ponto, se restringia ao sensorial. Não sei se pela fase do meu sono ou se por não ser apenas um sonho. A sensação resplandecente de experienciar o que não se pode traduzir em palavras se manteve por tempo suficiente e, ainda assim, um tempo curto. Depois, um fundo preto de rostos monstruosos sendo deformados e transformados em outros rostos monstruosos. Enquanto aguardava o medo e ele não vinha, eu apreciava. Assistia fascinada aquela dança de rostos feios trocados em looping no centro de uma escuridão. A mente racional me dizia para temer, no entanto eu sentia uma curiosidade latente que me fazia querer acompanhar a próxima transformação. E a próxima e a próxima e a próxima. Como se eu tivesse perdido o pavor dos meus monstros? Não sei. Logo o fundo preto de rostos assustadores se tornava um cenário embaçado, também escuro, onde está alguém. Alguém com quem eu não sonhava já há alguns bons meses. Nesse cenário eu corria para olhar esse alguém de frente. Eu o segurava pelo braço, mas ele se soltava. Eu continuava tentando encarar, mas ele fugia. Eu não sei o que eu sentia. Acho que nada. Parecia comum. Como se a natureza desse alguém fosse essa: escapar. Não lembro de me sentir inconformada no sonho. Lembro de tentar e aceitar a fuga. Em seguida eu aparecia em frente a um computador e encontrava e-mails perdidos, nunca lidos por mim, como se de tempos atrás, desse mesmo alguém. Aquela descoberta era dramática e a minha surpresa maior não eram os e-mails em si, nem o conteúdo deles, mas sim a minha desatenção por nunca ter reparado que haviam chegado. Por ter vivido tão imersa em mim mesma até eu esquecer de me lembrar, até qualquer comunicação se tornar uma possibilidade que não merecesse minha vigília. Era surpreendente o fato de eu não perceber quando deixei de me importar. O conteúdo da mensagem era emocional, listava uma série de arrependimentos e dores. E eu lia sem me consumir. Lia com carinho, compaixão e lamento, mas sem mergulhar naquela piscina de lástimas. Ao terminar de ler, decidida a não responder, eu pensava: isso já acabou há muito tempo. Depois esse alguém já sem contornos, embaçado, surge em frente a mim e pouco permanecia. Muito rapidamente uma espécie de tapume preto se colocava em frente a ele. Como uma cortina que se fecha após um espetáculo. Acordei. Com a exata mesma sensação de quando se assiste a uma ótima peça de teatro. Encantada com o fim, nutrida com a arte daquela representação. Sem urgências, sem apegos, e entendendo um pouco mais sobre como o inconsciente é bom em contar histórias.
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