Não tem vez que eu leia que não me dê vontade de escrever. Até me pergunto se por isso que nunca consegui ler muitos livros ou abandonei vários pela metade.
E não que eu não me envolva, não me estarreça, não me entregue. É que me invade uma incontrolável ansiedade de criar, também, algo incrível.
No fim, essa ansiedade me atrasou leituras profundas. E muitas vezes sem propósito valoroso já que a vontade súbita da escrita nem sempre se concretizava. Ou era abafada, ou nascia um texto sobre mim e as percepções que eu precisava desenvolver naquele momento.
Pensando bem, talvez seja injusto afirmar que minha ansiedade me atrasou de conhecer os grandes clássicos, assim em tom de desprezo. Que me atrasou é fato, mas preciso ser mais cuidadosa comigo mesma e não tratar como ausência de um propósito valoroso os textos que nasceram de mim. Como se isso fosse pouca coisa...
Em que pese meus textos sobre mim não pudessem realmente ser comparados aos grandes livros que eu deixava de ler, acredito, por fim, que me prepararam pra que eu me conhecesse tanto a ponto de ser, um dia, alguém que de fato estivesse pronta pra entender a vida por trás de tantas páginas mágicas.
Escrevendo sobre minhas impressões adolescentes fui me encontrando com muita consciência ao longo dos anos. Hoje sei bem cada trajeto que percorri, fosse nos meus momentos de lucidez ou de loucura.
Relendo meus escritos do passado, quando esse ímpeto interruptivo ainda era indomesticável, compreendi muito da minha imprecisão, realinhei minhas expectativas diante da vida, me emocionei, me admirei, me orgulhei. Absolutamente me encontrei comigo.
Ainda que em linhas por vezes mal escritas, me esclareci de mim. Organizei aquela cabecinha atordoada e movimentada de coisas que não entendia, coisas que começavam no peito a borbulhar impacientes enquanto se lia um livro bonito, e logo subiam pra cuca bagunçada suspender aquela leitura que se assemelhava a um fogão aquecendo um alimento e o deixando a ponto de ebulição.
Ler era isso, pra mim.
Ler me aquecia tanto que eu ficava louca pra escrever porque eu precisava me encontrar na minha loucura e aquelas palavras coordenadas e profundas, ainda que igualmente loucas, me empurravam pra querer que de minha cabeça saísse também uma loucura sã, clareada em composições estruturadas, concisas, coerentes — mesmo que eivadas das incoerências de gente que sente.
Penso que talvez fosse como um chamado. Um chamado pra que eu, um dia, me organizasse tanto a ponto de conseguir também gestar um livro.
Quem sabe?
É certo que um corpo precisa amadurecer pra estar pronto pra gestar. É possível que meus livros interrompidos estivessem me encaminhando pra esse amadurecimento. Mas não só o amadurecimento de quem pode gestar um livro, estavam me encaminhando para me fazer crescer até aprender a ler, ser capaz de ler pra receber o ouro que só um livro lido inteiro pode oferecer.
Teria sido um amadurecimento mais demorado se eu não tivesse sequer tentado ler ao longo do caminho? Se eu tivesse desistido, se eu tivesse me assustado com a quentura que ler me provocava e não me aproximasse mais de nenhuma multidão de palavras quentes entre capas?
Acredito que sim, teria demorado mais. Eu teria chegado aqui, mas talvez não agora, talvez bem tarde quando não desse mais tempo de usufruir de qualquer amadurecimento.
Acredito que teria demorado porque de pronto não me recordo de outra coisa que me fizesse entrar em estado de ebulição até fervilhar na minha mente o ímpeto de juntar palavras e palavras na tentativa de traduzir meus sentimentos, a não ser um livro.
Na realidade, posso até estar mentindo. É possível sim que a vida me provocasse algo nesse sentido, mas agora, analisando melhor, penso que nada na vida era tão consistente em transmitir todo esse fogo quanto virar as páginas de um livro e sentir meu coração bater mais forte até cutucar minha cabeça com ideias que queriam virar frases a serem registradas imediatamente.
A vida me provoca, sim, impulsos de escrita. Mas a vida, numa correnteza de emoções oscilantes, me leva. Me leva e faz passar, me leva e eu esqueço, me leva e já foi.
Um livro instantaneamente me joga em outra correnteza de emoções, que não oscila tanto, é contínua, às vezes suave, às vezes intensa, mas, sobretudo, contínua. Contínua. E interrompível.
É possível parar uma leitura, mas nem sempre dá pra parar a vida e escrever escrever escrever até os dedos doerem.
Na vida tem muita vida, vem outra cena, outra dinâmica, outro ímpeto que é substituído por outro e outro e outro. E nunca escrevo. Pelo menos não até eu encarar uma situação tão efervescente que me faça ouvir uma ameaça gritante, como quem me diz em tom agressivo e violento: “ou você escreve, ou você morre”.
Às vezes escrevo. Às vezes morro.
De toda forma, evoluindo agora nessa coisa de ser leitora sinto que enfim já consigo controlar minhas ebulições. Contudo, contraditoriamente a esta afirmação, confesso que escrevi esse texto logo após interromper “A Amiga Genial”.
A vantagem é que, depois de eu muito desenvolver esses súbitos acessos de inspiração inevitável até aprender a administrá-los, o tal controle que agora possuo consegue me fazer escrever um texto a partir de uma outra ansiedade: a ansiedade pra continuar a minha leitura.
Até porque não é todo dia que a gente lê Elena Ferrante pela primeira vez e esse aquecimento aqui dentro, sem dúvidas, merece ser apreciado. Escrevendo. E lendo.
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