Quem eu fui não existe mais e eu preciso elaborar isso. Sentir esse luto, encarar essa verdade.
Há mais de um ano vivo esse processo de troca de pele. E nem eu sabia que meus rompimentos, minhas tragédias, minhas dores, eram apenas o início da minha morte. Eu até imaginei que aquele furacão de vontades inexplicáveis que tomou conta de mim e me fez agir tal qual esse fenômeno da natureza, destruindo tudo, pudesse significar algo sobre transformação, renovação, mas não exatamente que se tratava da morte inteira de mim.
Achei ser apenas sobre um novo mundo com espaço pra eu seguir por novos caminhos. Um mundo menos tumultuado por desejos irrealizáveis, por idealizações. Mas agora percebo minha ingenuidade. Esse mundo novo não dependia só de algumas despedidas pra ser inaugurado. Subestimei o furacão. Foi tudo muito além.
Racionalizo agora, friamente, que talvez eu não tivesse a consciência real de que eu estava me matando. Naquele momento, eu, tola, sabia somente que algo precisava morrer. E matei, estripei, com requintes de crueldade. Eu fui junto.
Talvez em alguma medida, com o passar do tempo, eu tenha suspeitado algo sobre minha existência estar se esvaindo. No entanto, sinto que me preocupei muito mais em sair do buraco negro que o luto pela perda de pessoas estruturantes me enfiou. Despreocupei de olhar pra mim com a benevolência que quem também estava morrendo merecia.
O fato de eu estar morrendo me era sabido, até porque que uma parte de mim morresse era inevitável. Mas eu assumo que encarava essa morte apenas sob a perspectiva de que estava se abrindo espaço para um novo lugar melhor do que o lugar antigo. Eis mais uma demonstração da minha ingenuidade, do meu otimismo tóxico. É claro que essa promessa não se cumpriu.
O novo lugar veio, mas não era bonito e ensolarado como imaginei. No primeiro momento achei que era pela morte de quem eu matei, e então me esforcei pra tratar minhas perdas, ter paciência pra ver o sol nascer. Na medida que os raios tímidos iam surgindo, eu até ia vivendo, mesmo morta. Mas tudo era de uma transição imprecisa. Morta-viva. Eu ainda não tinha a real dimensão do quanto de mim havia morrido. Achei que era pouco.
Não era.
Em certo momento eu mal sabia onde eu estava e assim estava tudo bem já que minhas energias estavam em outro canto, em outras dores. Mesmo com pouca visibilidade, fui construindo intuitivamente uma nova eu, em cima de uma eu toda morta, apodrecida, necrosada. Era tudo muito nebuloso. E sinto que ainda estou assim, meio lá, meio cá, mas agora de fato lúcida de que morri.
Minha lucidez veio de transmutação real. De corte real, de pontos cirúrgicos, de reestruturação completa. Remodelei quem eu era ainda no escuro sobre a intensidade da minha morte. Mas fiz o que eu senti que devia fazer. Quase que em abstração completa, em transe, apenas decidi pela metamorfose.
Precisei mudar minha imagem pra entender que eu, definitivamente, não existo mais como eu era. Agora sou, de fato, outra. Outra em aparência, em crença, em cinismo.
Me sinto cínica diante de tudo. Me sinto sã, mas endurecida. Estou mais rígida, intolerante. Estabeleci regras indiscutíveis e me coloquei a frente de mim mesma com um escudo indestrutível. Eu protegendo a mim mesma.
Agora, aqui, estou identificando minhas armaduras, e ainda trocando de pele. Chego a uma conclusão sofrida: quem eu fui não existe mais e eu ainda não havia chorado por isso. Chorei por tudo mas nunca exclusivamente pela minha morte. E nem me culpo, já que eu não sabia o tamanho do estrago até realmente me desconfigurar.
Meu espelho reflete quase que literalmente outra pessoa que eu ainda odeio porque não me despedi de mim como eu deveria. Ainda vivo inebriada pela minha sombra que delimita meus contornos antigos. Não me reconheço em quem sou agora, mesmo me sabendo por inteira. Por tudo, acredito que o que me falta é chorar a minha morte desesperadamente. Chorar pelo apego, pelo medo profundo em perder a doçura que antes eu tinha. Medo de deixar de enxergar a vida com graça e leveza.
Quero pensar que sei que é tudo meu e está apenas temporariamente desorganizado, e pra organizar só preciso desanuviar meu tempo ruim chorando a minha própria morte pra ver meu sol raiar inteiro. Preciso olhar pra essa nova que sou e encontrar nela só o essencial daquela que fui. No momento não acho. No momento é como se eu já tivesse gastado todas as minhas lágrimas.
Não sei por onde começar, mas quero começar acreditando que o dia de amar essa nova pessoa vai chegar. Que vou conseguir me olhar na certeza de ser quem sempre quis ser. Não perfeita, não lindíssima, mas eu. Confiante, confortável na minha pele.
Ainda está um alvoroço danado aqui dentro. Um estranhamento profundo. Uma tristeza por não ser quem eu era e uma tristeza por não me encontrar em quem sou. Apesar disso, essa tristeza não me faz me querer de volta. Eu continuo achando que aquela outra alguém não era quem eu nasci pra ser, apesar de sentir muito amor e carinho pela minha versão de tantos anos.
Agora me vejo talvez mais próxima de ser quem eu sempre quis, ou talvez muito distante. Me sinto perdida. Consciente do chão que já percorri, mas momentaneamente perdida, ou paralisada. Não sei se o que me falta é coragem pra continuar andando ou se simplesmente é o momento em que preciso parar e descansar. Creio na segunda opção como a melhor resposta, até porque vai ser exaustivo demais chorar a minha morte enquanto sigo andando.
Sei que preciso parar pra sentir minha perda definitiva de mim, recalcular a rota, reabastecer meu combustível. Achar um novo jeito de apreciar minhas transformações, por mais assustadoras que elas sejam. Apreciar meu tímido raio de sol. Olhar em volta, dizer adeus pra quem eu era com a mesma profundidade que eu disse adeus pra tanta coisa.
Quero, depois desse descanso, me ver com amor. O amor que não sinto agora. Agora, precisamente, sinto pavor. Estou apavorada por não me encontrar e não conhecer muito bem essa nova que sou. É confuso, atordoante. Me sinto no limbo de mim.
Apesar de tudo, vou deixar um pouco de lado a minha esperança habitual pra sofrer. Como sempre faço. Porque eu sei ser feliz, mas também sei não ser. Daí uma das minhas características que perduram mesmo que eu morra mil vezes: eu sei sentir o que for preciso.
Agora vou forçar minhas lágrimas secas de quem já vem de um longo percurso pelo deserto. Nesse desacerto, nessa dor de me desconhecer em carne, corpo e mente, porque meu coração permanece intacto por trás da camada de gelo que se fez pra ele acalmar e parar de bater tão rápido.
O desconhecido que eu desbravo sempre mas sempre me atrofia, agora está mais intimidador do que nunca. Eis que é a hora de mergulhar nesse desconhecido e chorar minha morte, enfeitar meu túmulo, lamentar a minha partida.
Vou sofrer tudo o que eu puder, deixando me invadir toda a dor até a loucura me esclarecer o que está conturbado, fazendo todo esse estranhamento passar. E então, depois da tempestade, no conforto estarei eu, nova em mim, certa de que quem não me conhece não pode mais ver pra crer. Porque aquela que eu fui não existe mais. E aí, enfim, vou poder dizer: "Ainda bem. Bem-vinda, nova eu".
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