... Subentenda-me: Uma deusa, uma louca ou uma feiticeira?

quarta-feira, 25 de março de 2026

Uma deusa, uma louca ou uma feiticeira?

Hoje eu quero que seja sobre a falta, a falta de sentido e o fato de que posso viver bem nas minhas faltas. Eu preciso provar isso pra mim. Que problema tem nisso? Talvez todos. Mas isso não é pra fazer sentido, e mesmo assim fará. Não como a reatividade pra eu desconstruir a expectativa de alguém só pra não entregar a esse alguém certo protagonismo, mas sim pra ser genuína diante das minhas inspirações. Inspirações e (in)compreensões. Isso tudo de que tento me alimentar o tempo todo. A loucura não passou, está no seu apogeu. Pois lá vamos nós. É pra isso que eu estou aqui, pra enlouquecer e não ter medo de enlouquecer. Pra tentar repetir até conviver bem com as verdades que não me assumo. Quem que eu estou enganando? É claro que eu ainda sirvo a uma perfeição de mim. E isso vem não de uma, mas de todas as fontes que me referenciam o que é belo e o que eu gostaria de ser. Ontem uma frase me pegou. Era sobre esse limbo, esse lugar sombrio. "Se permita ser uma incógnita". Fiquei reflexiva. Bem, não importa quantos cenários eu imagine, estou só. Aqui estou só. E gosto. Construir isso, habitar esse lugar solitário, ainda que por vezes acompanhada de delírios, é sustentar meu vazio? Ou é mais uma ferragem da sapata que estrutura uma nova versão ideal a partir do olhar de outros? Que outros? São sempre os mesmos com alguns agregados, não são? E sabendo de tudo isso, eu estou me pressionando a seguir cartilhas sobre as quais eu conheço pouquíssimo mas me julgo secretamente superior à maioria das pessoas pelo pouco que sei? Tenho me notado mais arrogante mesmo. Sem filtro pra desaforos. Que se exploda essa porra de mundo porque sei de onde vim e pra onde vou. Eu digo. Depois eu mesma acho graça da minha petulância. Como se eu realmente soubesse, como se eu não fosse indefesa, como se eu não morresse de medo das oscilações, minhas e dos outros. Nunca neguei meus medos e como me atingem. Fujo deles, mas sempre estão aqui. Está aqui também a supervalorização e centralização do meu eu. Me orgulho da consciência de que é tudo sobre mim, mas, na mesma proporção, me envergonho. Bobinha. Mas quem é que vai me dizer que eu não sou o centro do meu universo? E quem não é o centro do seu? E pra quem eu escrevo? Ai, que horror que eu tenho dessa pessoa pra quem escrevo. Eu tenho horror, eu saio correndo. Mas eu amo. Amo porque não sou eu, mas ao mesmo tempo sou. Mais cedo anotei num post-it: "me reescrever a partir de outros olhos". Escrevi quando ouvi que se escreve sobre si a partir do outro. Lembrar disso me exaure e eu sei bem o motivo. Mas achei, num lapso, que listar outros olhares que me descrevem poderia ressignificar esse meu drama. Ana Carolina. É estranho ler meu nome. Sempre achei. Não sei me apresentar. Nunca soube. Eu nunca sei se vou dizer "Ana Carolina", "Ana", "Carolina", "Carol". Acho Carol infantil, tenho dito que sou Carolina com mais frequência. Esse tal de infamiliar me pega bem nessas horas. Às vezes não me sinto nada Carolina, mas também não gosto mais da Ana, acredita? Eu nunca sei quem eu vou ser, é uma perdição. Mas ouvi outro dia: "não acho a Ana Carolina preguiçosa, acho que ela só tem energia pra fazer bem feito o que é do interesse dela". Nossa, como acertou. E nem foi uma crítica. Me reconheci aí e são desses olhares que quero me reescrever, porque são honestos. Talvez eu seja mesmo a Ana Carolina. Não é que me pareceu menos estranho agora? Mas, seguindo, também li algo sobre me permitir entrar nesse vale da estranheza, sobre não correr atrás desse reconhecimento de mim. Então é isso? Fazer desse lugar sombrio um lugar bom? Não, cala boca! É só pra deixar esse lugar sombrio ser sombrio mesmo. Um novo amor é sempre sombrio porque é novo. O novo assusta mas é divertidíssimo. Não quero não querer acertar só pra não parecer ser tão autoindulgente comigo mesma. É óbvio que eu quero sempre acertar. Não tenho dúvidas de que sei lidar com meus erros. Ora, veja só, até pra errar eu estou acertando. É um tanto problemático gostar tanto de mim assim até quando estou me odiando, não é? Eu não sei ser diferente disso mesmo que agora eu não tenha mais nada igual. Sabe? Coisas minhas, novinhas em folha. Ou não? Não, claro que não. Nunca é. Mas quem disse que isso tem que me preocupar ainda? Não tem. É viver na sabedoria de que eu sempre vou escrever aqui, me vangloriar, e me permitir me olhar por esse meu olhar também. Vou mandar mensagens desaforadas pra fornecedores que me destratam porque ninguém pode me destratar. Porque eu sou mulher destemida. Eu faço de um tudo pra ser vista como quem é. Coitadinha de mim. Vê só como eu passei a ser bem nojentinha? Mas eu não quero que me achem nojentinha. Quero ser quem entende das coisas, quem as pessoas procuram pra pedir orientação. Desde uma coisa banal até sobre uma teoria não sei das quantas que eu faço parecer pra todo mundo que entendo. Eu sou isso. Sou muita coisa e entre elas sou uma farsa. Nesse limbo talvez seja confortável isso de ser uma farsa. E é. Tem sido. É o tal do vazio. É isso de eu saber que sou tudo e também não sou nada e tá tudo bem? Que beleza. Eu gosto. Tenho vivido menos momentos de me projetar a uma certa consciência alheia a minha pra me avaliar, mas ainda acontece. Vou mentir pra quê? Outro dia aconteceu. Estávamos reunidos em família comendo churrasco numa segunda-feira despretensiosa. Estava fazendo uma noite estrelada, daí lembrei de me ver por cima. É dificílimo superar meus vícios. Mas quem foi que disse que preciso superar? Então deixa eu esfregar de vez em quando na cara desse fantasma que eu sou feliz à beça mesmo quando me desconheço. Deixa eu esfregar na minha cara, até porque é pra isso mesmo que servem os fantasmas. Servem pra lembrar que somos iguais e até nos confundimos entre nós mesmos. Porque na minha cabeça toda alma vagante é uma alma só fragmentada em infinitas almas. Eu não deixo de ser ninguém e ninguém deixa de ser eu. Mas que a gente muda, a gente muda. Mudamos e continuamos sendo. Loucura total. Mas tá vendo como eu me suporto e me lambuzo toda nesse lugar de confusão? Ou será que eu estou escrevendo tudo isso pra me convencer de que eu sei viver na falta? Será que eu sei que na verdade eu nunca vou de fato saber quem sou? Que droga! Espera. Vou começar de novo. 

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