... Subentenda-me: De uma noite sem beijos antes de dormir

terça-feira, 10 de março de 2026

De uma noite sem beijos antes de dormir

Ele me elogiou espontaneamente. Me chamou de extraordinária. Depois interrompeu, deu um passo pra trás e disse que não pode me elogiar muito porque a areia do meu caminhão pode tombar sobre ele. Eu pedi pra ele repetir o que disse. Ele repetiu, rindo, já prevendo as consequências dessa infeliz colocação. Comecei então o meu TED talk.

Perguntei pausadamente se ele havia dito o que eu pensei ter ouvido. Ele confirmou, sem graça, achando que ainda estávamos sob o manto da descontração. Entreguei sutilmente mais uns metros de corda pra ele se enforcar e não demorou muito pra que as mais ocultas inseguranças se manifestassem.

"Então quer dizer que você não pode me elogiar pra eu não te superar?". Gaguejos vieram.

Educadamente e em tom de voz ameno comecei manifestando meu total descontentamento com o ato falho que a fragilidade da masculinidade dele me revelou.

Eu disse que não existe a possibilidade de eu me limitar por ele e que ele, se quiser, que me alcance ou banque toda a areia do meu caminhão. Que aguente e seja homem pra não intencionar que uma mulher restrinja sua evolução por ele, sendo o contrário disso a covardia para a qual eu não bato palmas e muito menos me submeto.

Ele paralisou, os olhos marejaram e as pálpebras inferiores ficaram vermelhas. O choro másculo entalado e o meu, digno, escorrendo pelo meu rosto e molhando os meus lábios que não paravam de proferir as palavras duras que eu lutei muito pra aprender a dizer sem parar pra respirar, sem me diminuir, sem temer qualquer abandono.

Mesmo sem fôlego segui comunicando o que acabara de me ferir porque doeu num lugar muito específico, conhecido por nós dois: o lugar da minha guerra contra minha baixa autoestima. Guerra esta que ele presenciou e me viu vencer. Ele, que tanto me ouviu lastimar por anos sobre a dificuldade que foi pra mim construir a fortaleza que hoje habito.

Chorei não como quem duvida de onde está ou de quem é, e sim como quem honra o esforço que foi aceitar que o que eu sou não se limita. O esforço de aceitar que ninguém mais me limita, nem eu.

Eu fiz isso comigo por muito tempo, e admito. Foi um processo árduo, triste e solitário me libertar de tantas amarras e correntes que eu mesma me envolvi, mas consegui.

Em nome dessa luta, o que começou como uma simples brincadeira machista, se transformou em um dos meus melhores e maiores manifestos. Na expressão real da minha cura.

Eu disse firmemente que ele não deseje me paralisar pra se sentir melhor consigo mesmo. Para além disso, acrescentei que não dependo de elogios pra me abastecer e esse caminhão vai continuar se enchendo de areia até transbordar, e seguirá assim.

Enquanto ele respirava ofegante e incrédulo, eu me posicionava, mais uma vez, a favor da minha autonomia e independência pra ir além das minhas proibições anteriormente auto impostas e que hoje assumem a função de ser impulso.

Eu não sou pouco, eu não quero pouco.

Segui construindo esse prédio que agora habita a mente dele: a cada frase, um novo tijolo. Afirmei com uma sinceridade ferina que minhas escolhas me trouxeram até aqui e que se as escolhas feitas por ele não o colocam no mesmo patamar de satisfação que hoje eu estou, sinto muito, que ele então faça novas escolhas, mas não me impeça, nem em pensamento, de continuar subindo as minhas escadas.

Logo mais ele tentou vestir a típica roupa de vítima acuada, reconhecendo sua insegurança e confirmando a existência do medo de me perder pra minha evolução. Lamento este que não me comoveu, apesar de eu compreender o motivo estrutural que o encaminha pra esse receio.

Internamente até reconheço a vantagem de poder dialogar com um homem não violento, racional e que demonstra considerável interesse na sua reconstrução, mas não me permito ludibriar por justificativas que me convidam pra um jogo emocional perigoso.

Diante disso, verbalizei que nenhum medo dele deve se interessar pela minha regressão, ainda que em segredo. Ele negou esse interesse e eu pontuei que não há outra interpretação.

Ele tentou me contornar apresentando outro ponto de vista mas não o deixei concluir e anunciei que minhas declarações são apenas o registro de uma premissa inegociável: aqui, nesse relacionamento, nunca haverá submissão ou limitação do meu progresso.

Ponto final.

O perdão veio agora com mais vigor. "Eu sou péssimo". Ele dizia repetidas vezes. Eu, impaciente, concordei mas disse que não admiro a autopiedade em excesso. Deixei em destaque que o que me mantém é o resultado prático dos ajustes que precisam ser feitos.

Enxuguei minhas lágrimas contidas mas honestas e finalizei a conversa propondo uma profunda reflexão.

Após alguns anos, nessa noite não nos beijamos antes de dormir.

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