... Subentenda-me: Um dia

terça-feira, 26 de abril de 2011

Um dia

Imagine um dia...

Um dia livre, daqueles raros de se ver, com o céu laranja meio rosado (um desses eu só enxerguei quando criança). Um dia em uma praça com folhas caídas de outono, ou simplesmente outro lugar sutil, desses que existem por aí.

Primeiro, uma moça de roupas leves, com cores cintilantes combinando com a cor de seu cabelo, ou da bolsa, quem sabe.

Depois, um rapaz, com cabelos lindos, negros. Que faz ignorar qualquer tipo de roupa leve, quando se vê aquele cabelo indo junto na direção do vento.

Caminhavam meio perdidos, assim, bem com uma sensação de vazio. De querer achar sem procurar. De querer ver, mas sem aqueles olhares embasbacados quando se deparam com um casal feliz. Como um poeta, que quer inspiração, mas não se esforça pra encontrá-la. Se quer vir, vem.

E eles estavam alí, bem nesse jeito de "deixa a vida me levar"...

O rapaz, calmo, mas preocupado com outros problemas. A moça, calma, mas apreensiva com outras situações.

Diante de tais devaneios pessoais, tinham algo em comum: queriam alguém. Queriam sentir outra vez o que é ter seus olhos cheios de lágrimas ao avistar alguém por quem sentiam saudades desconhecidas. Queriam sentir o abraço mais aconchegante, que os permitisse o desejo de viver alí pra sempre.

Eles eram perfeitos para se apaixonarem devotamente um pelo outro à primeira vista.

O tempo favorecia, o vento favorecia, o clima favorecia, a beleza de tudo natural ao redor favorecia.

E depois então veio o olhar... Tão esperado, inconscientemente, por ambos. 

Aquele olhar de todos os contos de fadas, aquele de bater forte o coração, de ter a boca seca e as borboletas no estômago. Esses todos que os mais românticos descrevem, por conhecer, vivenciar, ou apenas sonhar.

De primeira, era uma confusão de neurônios. Mas ela de alguma forma sabia que algo mudava dentro do seu coraçãozinho embaraçado. E ele sabia que alguma pontada involuntária estava tocando seus mais improváveis sentimentos.

E diante de tanto fervor, acabo esquecendo... como é aquela moça mesmo? Devo citar algumas características de sua personalidade? Acho que sim...

Pois então, ela era dona de um sentimento tão bonito que ainda não havia encontrado ninguém com a prudência necessária para lapidá-lo e moldá-lo de um jeito que ela queria pra si própria. Ela não queria alguém perfeito, ela queria alguém pra ela. Mesmo já tendo tido outras paixões, vivia por aí, pelos cantos, declamando a vida, e se questionando a respeito de quando ia chegar alguém que a realmente fizesse despertar todo o sentimento mágico que ela gostaria de sentir. Ela era divertida, brincalhona, dita pelos outros com uma luz interna contagiante. Conselheira, não gostava de ver ninguém chorar, e se por acaso visse apertava tanto o coração que a fazia chorar junto. Ela não merecia ser colocada em um altar pois tinha seus defeitos, e os reconhecia. Mas aquela moça tinha uma paixão pela vida tão grande, que mesmo distante do que ela queria para ser completamente feliz, não conseguia se conter de tanto amor a tudo. Tinha muito amor em si, mesmo com uma pitada de falta de carinho, e de saudade do que ainda não havia conhecido, de saudades do futuro. A alegria de estar com os amigos, de ver que tinham pessoas que a queriam bem, era tudo o que ela mais amava possuir, e de resto, o pouco que faltava seria a cereja do maravilhoso sundae de chocolate que ela tinha preparado durante a vida.

E diante de tantos detalhes a respeito da moça, acabei esquecendo... e aquele bonito rapaz? Devo citar algumas características de sua personalidade? Acho que sim...

Ele era culto, inteligente, e com a alma mais linda e colorida de todas. Conseguia ter graça, ser bem humorado, sem fugir dos seus padrões e princípios. Tinha perseverança, e consciência de tudo o que sentia. Já tinha tido outros amores, como a moça. Frustrados ou não, eram suficientes pra ele ter aprendido tudo de necessário sobre o que seria gostar mesmo de alguém. Ele queria ser aquele grande homem que tinha ao lado sua grande mulher. Respeitava a vida, sabia como vivê-la. E também não era santo, não era e nem queria ser melhor do que ninguém. Apesar de tanta delicadeza, se o machucassem, ou se machucassem quem ele realmente amava, estariam derrubando um portinha entre seu lado amável e seu lado defensor, defenestrador, que ele quase nunca revelava. Sabia o que queria, tinha sentimentos. Não era apelativo, não era conservador, era engraçado. Gostava de brincar com seus amigos, e tinha uma relação muito boa com todos eles. Contava piadas, ria. Era feliz sem uma pitada de sal. Já tinha vivido bastante, não tanto em idade, mas em experiências. E percebeu que queria um pouco mais de divisão do que apenas a adição. Entendia de tudo um pouco. Fazia sucesso com as meninas, mas ainda não havia encontrado peça que faltava no quebra-cabeça. Ele era feliz, ele gostava da vida, não reclamava dela. Só sentia falta, e possuía um buraquinho dentro de si que precisava ser preenchido. E que fique longe a visão de que ele era perfeito, porque ele não era...

Mas para aquela moça...

Ele era, sem saber, a cereja do tal sundae...

E ela era dona, sem saber, do tal pedaço com encaixe perfeito pra esse buraquinho que ele tinha dentro de si.

Os dois eram tudo, não pro mundo, mas para eles. Um completo, uma foto bem tirada, uma vista bonita, uma janela com cortinas fofas.

De resto, o olhar cruzado entre eles se encarregaria. Um sorriso em seguida, uma conversa despretensiosa, um "oi". Aos poucos eles saberiam. Um dia é o que basta para que outros venham. Não é assim que é o que chamamos de vida? Pois é...

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Coloco esta moça como sendo eu, e me reconhecendo diante do que eu vejo em mim, sem falsas modéstias. Coloco este rapaz como sendo reflexo de tudo que eu acho mais lindo, e de tudo que, por hoje, parece ser o mais adequado diante do que eu procuro e idealizo.

Sonhar é de graça.

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