Ele era tão bonitinho, e tão limpinho, cheirosinho, tudo inho. Ele tinha cabelos lisos, negros, lindos. Ele sorria e iluminava o mundo. Ele era sério, compenetrado. Falava coisas que faziam os outros pensarem sempre no porque não haviam tido aquela ideia antes. Que bonito ele, que vistoso, elegante. Porte de rei, burguês, menino mimado. Mas ao contrário disso ele era um jovem revolucionário indignado com injustiças e determinado a de alguma forma tentar mudar isso. Ele sabia um pouco de tudo. Entendia de música como ninguém. Tocava todos os instrumentos que pudessem imaginar. Além de ser belo, persuasivo, com um tom levemente imprudente que me deixava completamente fascinada, ele também escrevia coisas bonitas. Vocabulário culto, eloquente. Prolongava discursos instrutivos e inúteis, pois também tinha um senso de humor incontestável. Usava o insignificante em tão bom contexto que significava algo rapidinho. Nós não éramos muito diferentes, talvez bem pouco até. A gente se entendia bem, a gente se comunicava bem até nos desentendimentos. A gente daria certo, super certo. Nos conhecemos meio assim "sei lá". No tempo errado que era certo, pois o tempo certo era errado demais. De um dia para o outro encontrei mais coisas em comum com aquele rapaz do que comigo mesma. E como era bem informado, e como era inteligente, amável. Eu, de certa forma, me inspirava naquele jeito intolerante e revoltado, que ao mesmo tempo era também portador de uma sensibilidade casual. Não sei o que ele me transmitia, era confusão sem fim. E como se não bastasse encontrar alguém tão eu, tão ilusório, utópico, me coloquei diante da utopia maior: o longe. Ele era bem previsível. É, aquela coisa paradoxal, previsivelmente imprevisível. E o que eu mais amava nele era a grande capacidade que ele tinha de me surpreender mesmo com uma coisa que eu consideraria tão óbvia, tão a cara dele. Eu o amava, e não me importava em escrever sobre ele mesmo sabendo que após isso não haveria maiores observações. Ou sim. Ou não sei. Ah, a gente até sonhava coisas bonitinhas, e eu até pensava nele quando lia alguma poesia. Dizíamos coisas irrelevantes que pra mim se tornavam essenciais, necessárias. Pra ele eu não sei. Sei lá pra ele. Acredito que também, mas ele é um não sei total. Combinávamos até no signo, onde certa vez eu li que se superássemos algumas divergências e se acrescentássemos paciência poderíamos nos considerar almas gêmeas. E quem acredita nisso? Ora, almas gêmeas. Ele não acreditava, era prudente demais pra isso. E eu me poupava de acreditar nessa coisa pré-suposta porque seria sempre a expectativa do tudo pairando sobre a minha vida tão sem atrativos maiores (tão sem ele). Ele me dizia coisas bobas, e era bobo que nem eu. Eu bem que queria ele pra mim... ô se queria. E pra falar a verdade, esse texto com tantos verbos no passado não faz muito sentido. A verdade é que a gente vive isso tão bem, que já dá pra imaginar um futuro sem sequer haver passado. Imaginar, imaginar. Eu sei bem que os caminhos podem nos afastar - mais ainda -, a vida pode mudar, os planos podem se distorcer, e quem sabe a gente acabe encontrando por aí em meio a essas cidades diferentes algo melhor pra viver, pra esperar. Ele provavelmente entende mais de amor do que eu, mas eu sei que mesmo tudo indo ao contrário, começando ao contrário, e a gente tendo vivido tempos contrários em um mesmo lugar sem nos conhecer, toda contrariedade amplia um meio tão pouco provido de coisas a favor, que eu acredito que, mesmo a par de toda essa improbabilidade, ele continua sendo um futuro sem haver passado. Bem, não sei se meus planos nesse sentido são tão compatíveis com os dele. Talvez ele pense que isso não passa de um devaneio adolescente da minha parte, não sei. Só sei que Meu Deus, como eu quero continuar com essa pessoa de alma tão híbrida de emoções que me deixa completamente encantada quando diz um ai sem necessidade, quando me manda uma carta incomum fazendo o resto do mundo desacreditar que isso é amor e me fazendo crer cada vez mais que, mesmo que tudo contribua pra dar errado mil vezes, é dele que eu preciso.
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