... Subentenda-me: Viajante

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Viajante

Tempo, era isso pra ser? Eram estes pra estar? Por que tu te calas? Meus sinais o universo não manda, e tu, o que fazes? Só fazes passar. Está passando agora e trazendo contigo, na mesma viagem, um cheirinho de passado. Que injusto tu és! Por que tu me atiças com as tuas bagagens, com as minhas bagagens que tu brincas de levar pra um lado e pro outro? Tu te aproveitas que essas tais lembranças não são frágeis e as trasporta, e me enlouquece. Queria eu poder entrar nessa mala e ir junto. Por que não? Tempo, tu que és um dos deuses mais poderosos, o que te custa me levar? Eu posso desintegrar  e se chegar lá meio torta, meio descompensada, meio do lado errado, não vou me importar, talvez eu me endireite. Eu quero ir só olhar, não sejas tão cruel. Deixa eu ver de longe o que eu nunca vi, deixa eu olhar de perto o que tu só prometeste e não cumpriu. Tuas bagagens, minhas bagagens, essas lembranças serão mais leves. Por que não me deixas ir nessas tuas viagens, nesses teus retrocessos? Sabe, eu cansei das promessas que todos fazem em teu nome, não quero mais esperar até o dia em que tu resolvas me mandar alguém pra ajudar a carregar tanto peso, tanto pretérito. E nem ouso me iludir que tu pararás de viajar. Não vais parar de viajar através de ti mesmo, não é? Aliás, me diga o que tu és? Uma matrioska? Um túnel envolto a outro e outro e outro? Às vezes sinto que sou eu quem te percorre, noutras te sinto dando voltas e voltas dentro de mim, como agora. Te sinto indeciso, viajando em ti pra trás e pra frente, encarrilado em trilhos que se embaralham dentro de mim, dando um nó quando chegam no coração. Como pode um trilho dar um nó, Sr. Tempo? Como podes me deixar apegada a esses teus vagões que carregam esses caixotes lotados das tuas bagagens, minhas bagagens, lembranças. Quem te governa?

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