... Subentenda-me: Li enquanto estava numa sala de espera e lembrei de você.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Li enquanto estava numa sala de espera e lembrei de você.

As Moléculas. O amor.


Sempre soube que não duraria muito tempo. De fato, durou bem pouco. Mas a verdade é que o tempo do amor não é o mesmo tempo da vida. Este se mede em minutos, dias, anos; e aquele se conta em batidas cardíacas. E neste rápido tempo que passamos juntos, meu coração bateu tão forte e tão ligeiro, que sinto como se te amasse antes de te conhecer... Antes mesmo de começar a rodar o cronômetro da vida... Como se nosso amor fosse (e é) uma invenção de outra era, de outra vida. Como se o nosso sentimento fosse mais do que um simples afeto, porém a energia cósmica que mantinha as estrelas no céu...

O teu toque em mim era o imã que ativava a conexão invisível entre a transcendência e o universo; e entre o artista e sua obra. E nós – eu e tu – éramos o passo do bailarino, a palavra do escritor e a explosão de uma supernova a anos-luz de distância.

Mas no nosso último enlace, enquanto estávamos unidos em lágrimas acesas, minha essência se dissipou pelos teus braços e minha alma se dissolveu em moléculas, para vagar a esmo por entre os prédios desta cidade ou no vazio da galáxia, buscando novamente uma força que as una derradeiramente em um só corpo.

E tudo que tenho. Tudo que tu tiveste. Todos os objetos que existem no cosmo perderam a razão de ser na tua ausência e tendem a despencar do infinito, rasgando o céu como estrelas cadentes. E só então entendo para onde vão as alianças de um amor perdido e em que dimensão estão as cartas de amor de uma paixão que não existe mais. E, em brasa, descubro como destruir a memória da dança que as estrelas faziam no céu toda vez que tu seguravas a minha mão.

E imagino os livros que te dei, as roupas, as joias e as minhas esperanças derrotadas explodindo em faíscas coloridas e brilhando nos céus das noites mais escuras; nossa paixão falida, sendo estrelas mortas, mas fazendo sonhar os novos amantes.

E nesta queda, eu te chamo. E sei que tu me ouves... Porque a minha voz é a voz de tudo. É a voz da tua solidão. É a voz do infinito.

Que os meus objetos signifiquem por mim...
Que tu nunca me esqueças...
Que os pássaros sejam a música que guia teus passos de ballet e o universo vazio seja a inspiração para eu continuar escrevendo nessa vida...
Que as estrelas parem de despencar... E que meus dedos dilacerem o tempo e, numa outra dimensão, minhas moléculas consigam se unir novamente.
Que minha alma te acompanhe na tua dança... E tua voz sussurre as belas frases dos meus textos...

E que eu continue te amando de longe... Até o dia em que uma chuva de meteoros faça brilhar em ti novamente a estrela repetida de uma paixão que já morreu há tempos.
* Saulo Sisnando é escritor.

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