... Subentenda-me: Minha vida quase sem mim

sábado, 25 de janeiro de 2014

Minha vida quase sem mim

A morte me incomoda bastante e em todas as minhas divagações ela quase nunca fica de fora. É ruim ter a certeza de que um dia tudo acaba e de que estamos caminhando pra isso, inevitavelmente. Semestre passado, em uma das aulas onde a professora apresentava situações hipotéticas a respeito do que seria uma breve introdução ao assunto das sucessões, eu tive que me lembrar de que as coisas findam e de que o fim ainda vai se relacionar com a continuidade de tudo enquanto a gente já está fora do jogo. Não é nada fácil pensar na morte dos que eu amo, e também não é fácil pensar na minha morte. Eu gostaria muito de possuir a serenidade de algumas pessoas e aceitar a morte como sendo algo natural e necessário. Pensar em morrer pode ser muito reconfortante em algumas ocasiões, como quando penso que apesar de tantas diferenças entre todas as pessoas do mundo, todas terão o mesmo fim. Enfim, essa é só uma introdução dispensável pra descrever e registrar o dia em que eu achei que iria morrer (claro, se a morte não acontecer antes de eu voltar aqui pra recordar).

Bem, eu sempre fui muito nervosa com relação à saúde, meu pai até costuma dizer que desde que nasci ele não se lembra de um mês sequer em que eu tenha ficado sem ir a um hospital. É bem provável que ele esteja exagerando, pois nesses quase dezenove anos eu consigo lembrar de vários meses saudáveis da minha vida. Sim, é verdade que a quantidade de meses visitando um hospital supera, mas e daí? Isso só é válido mesmo pra ressaltar a aflição que se faz presente em mim todas as vezes em que passo mal. E como muitas outras vezes, três dias atrás eu comecei a sentir coisas estranhas e resolvi me adiantar um pouco e consultar o doutor Google colocando os meus sintomas e esperando um diagnóstico não muito preocupante, a fim de me tranquilizar e achar a solução rápida pros meus problemas. Pois é, mas acontece que o doutor Google só faltou imprimir automaticamente o meu atestado de óbito. E, claro, eu automaticamente pirei, os sintomas se agravaram a nível máximo, eu fiquei ofegante, comecei a tremer, senti como se o chão estivesse abrindo. 

SIM, EU ACHEI QUE EM MENOS DE 48 HORAS EU ESTARIA MORTA. Claro, não por acaso, afinal o doutor Google fez questão de me dizer que em casos como o meu, na melhor das hipóteses eu ficaria em coma. Então eu imediatamente mudei de planos, larguei meu material, entrei no carro do meu pai e chorando disse a ele pra correr comigo ao hospital. Nunca vou esquecer daquele caminho e nem de como eu convenci a mim mesma de que era o último da minha vida. Agora, parando pra pensar, me impressiono com a forma de como mergulhei de cabeça nessa realidade e de como foi tão intensa a forma como me senti. Não sei, se o doutor Google tivesse me dito que eu ainda teria algumas semanas de vida, ou um mês pelo menos, acho que eu ficaria menos louca (ou muito mais) e teria feito tudo o que desse na telha já que eu teria pouco tempo de vida. Mas o fato é que foi tudo muito forte, todos os pensamentos ruins vinham até mim com uma veracidade que me faria ganhar um oscar se eu estivesse atuando num filme. Crise de ansiedade total. 

Fomos a caminho do hospital, e a cada sinal vermelho eu pensava nas coisas que eu mais amava e nas coisas que eu ainda queria fazer. "Meu Deus, e a minha mãe? Como a minha mãe vai sobreviver sem mim? Por favor, alguém tem que acalmar a minha mãe.", "E o meu curso? Merda! Logo agora que eu realmente estou me apaixonando pelo Direito. Não quero morrer, preciso me formar", "E o meu marido, e os meus filhos? Eu quero ter filhos, eu quero ter um amor de verdade", "E meus amigos? E minha família? Eu não posso morrer às vésperas do aniversário de quatro anos da Laurinha. Não posso não ver o Rhyan crescendo.", "Eu realmente não vou ver o final de How I Met Your Mother? Vou morrer sem ter assistido os melhores filmes da face da terra, sem ter escutado as melhores músicas?". Então, esses foram alguns dos pensamentos que me fizeram chorar copiosamente no trajeto casa-hospital. E meu pai do lado, tentando me acalmar: "Fica calma, tu vais ficar bem". 

Chegando lá a médica começa a me atender já preocupada, pois eu não parava de chorar. Como o que eu estava sentindo não se relacionava com a especialidade dela, ela resolveu me encaminhar pra um especialista de sobreaviso, e, caso não fosse a especialidade dele, ele me encaminharia pra outro. Eu já sabia o que eu tinha, quase digo pra ela me internar de uma vez e acabar logo com isso. Mas não, e que bom que não falei nada, apenas obedeci (apesar de meio neurótica eu ainda consigo ser racional). Resumindo tudo, o médico que me atendou apontou o problema, me examinou, marcou alguns exames e disse que todas as minhas dores eram reflexo do meu estado emocional. 

Ainda não fiz os exames, ainda não sei com exatidão o que tenho e ainda continuo sentindo os mesmos sintomas, em proporções bem menores, claro. Eu ainda não sei se vou morrer logo, se o doutor Google estava certo, se eu posso acusar o hospital de negligência por não ter providenciado exames mais a fundo naquele momento mesmo. Continuo não sabendo se vou me formar, ou se estar viva pra ver o crescimento do Rhyan e da Laurinha, ou se vou ter filhos e um amor de verdade. Não sei como vai ser o final de himym, nem vi os melhores filmes, nem ouvi as melhores músicas. Eu não sei absolutamente nada sobre o dia de amanhã e nem sobre o final do dia de hoje. Sei que eu tenho muitos planos e muitos sonhos e muitos medos e muitas ambições. Depois desse episódio aprendi que é assim mesmo que as coisas acontecem, e num piscar de olhos tudo pode sumir. Talvez o doutor Google estivesse errado, ou talvez esteja certo. Mas o que eu consigo alcançar agora, após esse surto momentâneo, é que a vida é surpreendente. Eu já sabia, sim, mas eu ainda não havia me deparado tão assustadoramente com a sua brevidade. 

Eu ainda não morri, mas consegui aprender, com toda essa loucura que durou menos de duas horas, tudo o que realmente me importa. O amor importa, a vontade adquirir conhecimento pra ajudar as pessoas e tentar minimamente transformar o mundo importa, dar valor a cada personagenzinho que já passou por mim e me ensinou algo de bom importa. Muita coisa importa. Eu não sou um nada como muitas vezes já achei, eu não sou incapaz de praticar mudanças como muitas vezes, até por comodidade, me acusei. Eu não sou feia, nem burra, nem boba, nem insuficiente como muitas vezes já fizeram eu me achar. Eu sou muito mais do que isso. Eu sou o carinho e a cumplicidade e o companheirismo que tenho por meus pais. Eu sou as conversas profundas sobre juventude e relacionamentos que tenho com a Milena. Eu sou os conselhos que ela me dá. Eu sou as tardes caminhando até a casa do Willame e conversando sobre como pensar positivamente encaminha até nós coisas positivas e sobre como a felicidade está nos breves momentos em que atingimos a paz de espírito. Sou os conselhos que dou ao Pedro e também sou as palavras de conforto que ele precisa ouvir quando está triste e pensa em desistir do curso, ou da namorada. Sou as minhas lágrimas quando alguém machuca a Renata. Sou a minha dor por conseguir ser empática o suficiente pra sentir a dor de quem vive indignamente, de quem não é amparado e é tratado como lixo. Eu sou a vontade de continuar e melhorar a mim, e de ajudar a melhorar os outros, e de ajudar a melhorar o mundo. Eu sou as minhas saudades, eu sou o amor que tenho aqui acumulado pra dar pra alguém que realmente mereça. Eu sou a minha vontade de ser mãe. Eu sou muita coisa e peço encarecidamente a Deus que ainda me deixe continuar sendo.

E pra finalizar, se eu pudesse dar um conselho pra alguém, eu diria: sei que às vezes pode ser intuitivo e sei também que existe algo que nos impulsiona a isso, mas, por favor, em hipótese alguma consultem o doutor Google, tenho sérias suspeitas de que ele é um charlatão. 


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