... Subentenda-me: Hoje decidi escrever sobre ele

sábado, 18 de janeiro de 2014

Hoje decidi escrever sobre ele

É fato que me encontro em um estagnado estado de inspiração e é inevitável e necessário admitir que de todos os meus amores ele é o mais inspirador. Perturbador, interessante, impossível, e estupidamente charmoso de um jeito erradamente compreendido devido a minha realidade de nunca tê-lo visto. Agora faz um frio que me remete quase que imediatamente à época em que eu o amava. À época em que o meu maior desejo era conhecê-lo e com isso atormentava-me todos os dias a irresistível vontade de correr até o seu encontro. Corrida esta que, curiosamente determinada por mim como a quantidade de passos que representava a minha quantidade de amor, nunca pôde ser iniciada, fora algumas vezes em sonhos e em delírios noturnos sem grande influência em minhas ações. Pois bem. Ele. Ele que nunca soube por mim o quanto eu o amava, soube apenas pelo que foi capaz de deduzir como sendo o meu amor. Talvez pra ele isso não tenha se resumido a muito além de uma paixão passageira que não conseguiu ter uma significativa importância em razão das nossas condições. Sim, nossas condições de amor nunca foram muito favoráveis. Inclusive, nem sei porque chamo de condição visto que condição não havia, nunca houve. Mas eu jamais acreditei na possibilidade de amor como algo comum. Na verdade, quero dizer, sim, eu acreditava. Antes dele aparecer, é claro. Quando a sua personalidade cruzou o meu caminho de adolescente confusa e sem perspectivas eu tive a certeza irremediável de que um romance comum e cotidiano não caberia, pois era aquele erro e alucinação que eu queria viver, ou, com todo o perdão que o clichê da palavra exige, sonhar. E sim, sonhei. Mais do que sonhei, levitei, desincorporei de mim. E quanto mais, agora, eu classifico tudo o que fomos, a inverdade que fomos, me divirto. Não em sentido de deboche a pessoa que fui ou a quem fomos, me divirto pela diversão de fato existente. Divertido o passar do tempo, o não passar do tempo, o sair do tempo. Inegável o quanto era desejada uma tal viagem, uma tal possibilidade. Até hoje não sei ao certo o que esse moço de tão indecifráveis intenções tinha para cativar todas as partes de mim, mas tinha. E, diferente dos meus amores posteriores, irrelevantes em suas possíveis realidades que poderiam ser facilmente trocadas pela irrealidade dele, ele conseguiu, de tão distante, me aproximar de tudo o que bastava a aproximação. Me bastava aproximar de mim. Ele conseguiu, me aproximou do que eu sempre quis estar do lado, do que eu sempre quis entender, caminhar junto e atender a pedidos. Acho que conseguiu fazer com o que eu soubesse o que eu era e o que sou por motivos de também ser muito como eu, ou completamente o inverso de mim, ou, quem sabe até, ser apenas o que inventei dele. Diferente de tudo, de todos, ele veio com a única finalidade de, sem saber, fazer eu me saber um pouco mais, me saber o quanto ele não se sabia. Talvez ele seja aquela pessoa que aparece uma vez na vida de todo mundo, mudando as coisas, reorganizando as coisas, misturando. Deixou muito do não sei o quê que ele aprendeu e quis me ensinar. Levou de mim, pelo menos, um pingente dourado pra guardar em um baú junto de alguns perfumes, e uma carta largada em algum canto da casa. Sinto muito pelo pingente não ser de ouro, e pela carta não estar grafada pelas minhas juras de amor eterno que de tão eterno me faz escrever sobre ele - não mais para ele - mesmo depois de ter deixado de amá-lo. Na realidade, eu me pergunto todos os dias se deixei de amar, se passou, se dói, se algum dia doeu. Não encontro respostas cabíveis para poder definir a minha atual situação e o meu atual sentimento. Sei que doeu, não sei se dói, sei que passou e sei também que nunca passará. Se deixei de amar? Talvez sim e talvez não. Talvez sim por ter percebido, não muito tempo depois, que não nascemos pra morar na mesma cidade, ou bairro, ou rua, ou ilha. Morar no mesmo país nos bastava, nos bastou. Talvez não, porque, enfim, como deixar de amar? Como deixar de querer o que mais se quis na vida? Sei lá. Só sei que ele foi um diazinho como esse, ele foi alguns desenhos, algumas músicas, algumas bandas apresentadas e que ainda permanecem na minha playlist. "This is no declaration, I just thought i'd let you know goodbye". Ele foi um vidro, um do outro lado da tela, da vida, do mundo, do continente. Ele sabe. E de amor, amor mesmo, eu não sei falar. Eu digo que foi amor, a gente acha que foi amor. Mas o que é o amor? O amor foi ter querido fazer cafuné enquanto ele dormia? Foi ter ligado às três da madrugada pra falar barbaridades adequadas para o horário? Foi o que eu sentia quando ele perguntava por que eu era tão longe? É. Acho que amor são esses detalhezinhos e aparentemente insignificantes que a gente não esquece. Quero dizer, que eu não esqueço. E me proíbo de esquecer, saiba você ou quem quer que seja. Chame das maiores incoerências, ou coerências, tudo o que digo que senti, mas senti. Pobre de quem não sente nem de perto, pobre de quem acha que sente, pobre de quem engana o que sente, pobre de quem não quer sentir o que sente, pobre de quem não liga pro que o outro sente. Pobre eu não sou. Eu senti. Senti o que não presta, o que presta, o descartável, o quase insubstituível.  Por ele, senti e sinto saudade. Saudade daquilo que ainda não encontrei, daquilo que faz eu mentir para as minhas razões, paixões e exatidões que de tão inexatas me fazem perder o senso, o juízo, o equilíbrio, a veracidade de tudo o que eu admiro e admirei. Mas não me importo porque enquanto eu lembrar dele está tudo bem. Mesmo que nós não sejamos mais o que nunca fomos, mesmo que nós nos acompanhemos como bons amigos e apreciadores mútuos de uma sagacidade só presente no outro. Espero que este seja o meu papel. E, como diz a música, isso não é uma declaração. Isso aqui é um registro, uma causa a ser defendida por mim até o fim da vida. Porque eu gosto do que puxa, do que suga, do que detém uma dedicação imprudente e quase que indecifrável a alguém, a um querer, a um mistério, a uma mentira. Gosto do meu inexplicado gosto pelo inexplicável. Gosto de tentar explicar o que ele foi porque ele não se explica, não se vê e não se alcança. Não sinto mais vergonha ao expressar esses sentimentos persistentes. E me orgulho, do tamanho de um universo cheio de galáxias inexploradas, por tê-lo conhecido. Me orgulho por ter me apaixonado e, pra isso, não ter precisado tocá-lo com o dedão do pé ou ter visto qual a cor dos olhos dele ao sol.

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